<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791</id><updated>2012-02-16T00:33:16.901-08:00</updated><title type='text'>steppenwolf</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>18</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-1744524795197577319</id><published>2010-01-14T17:42:00.000-08:00</published><updated>2010-01-14T17:48:04.747-08:00</updated><title type='text'>(não tão) Breve passeio dominical</title><content type='html'>Os domingos costumeiramente raiavam por entre a minúscula janela do quarto do cortiço de forma inclemente. Talvez mais pelo telhado de zinco, a tosca armação em tnt para esconder as telhas e a necessidade de manter a janela fechada pelo inconveniente das baratas, domingos se iniciavam sempre de uma forma arrebatadora. O rádio do Salviano, bahiano-paulista morador do quarto fronteiriço, ligado toda a madrugada, seu rádio-relógio de Macabéa, sua paranóia bloqueando-o dentro do tugúrio, desperto, tentando escutar dos vizinhos qualquer referência ou citação à sua pessoa, era uma tormenta. Música xexelenta, dita popular brasileira, de rima pobre e neologismos baratíssimos. O rádio era seu amigo e algumas vezes até seu professor, ensinando-lhe de vida e pondo-o a par do mundo extra-muros do cortiço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despertava sempre com o colchão empapado de suor, precipitado pegajoso que emanava inevitavelmente o álcool do dia anterior, o zinco das telhas, a preguiça imensa de ver-se ante o último dia de repouso para iniciar nova jornada semanal. Era mais um domingo qualquer de muito sol, de Maracanã no final da tarde, de praias lotadas e do cortiço curando-se da ressaca religiosamente disparada pelos sábados de desesperadas bebedeiras. O sol brilhava irritante, os rádios do vizinhos começavam a tocar músicas medonhamente felizes de todos os lados, os pássaros cantavam. Tudo em verde, zinco e roupas úmidas no varal. Para a ressaca, fotofobia, termofobia, melofobia. Tudo vindo dos outros, é veneno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como de costume, o domingo começava com Lourival lavando a louça suntuosa e imunda de alguma patuscada da noite anterior. Lavava tudo soltando entre dentes trincados toda sorte de injúrias contra os gringos mimados e os bebuns moradores eternos do cortiço. Acostumado com a lida de acampamento, Lourival primeiro lavava toda a louça, deixava-a secando e, para amenizar o calor do dia e a sujeira largada na noite anterior por bebuns desastrados e cachorros de intestinos soltos por ração vagabunda, ele iniciava a limpeza do espaço comum dessa parte do cortiço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do meu quarto era possível escutar em detalhes cada movimento seu. Seja passando da pia, atravessando pelo varal cheio de roupas sujas esticadas para dissipar o fedor impregnado, seja entrando no banheiro, abrindo a porta da geladeira, acendendo um cigarro ou estalando os chinelos na escada até o andar de cima. Nossa região do cortiço é praticamente o subsolo, pensurado na ponta do morro, o último andar, em descenço, da entrada do cortiço. E Lourival conhece cada canto, cada história deste lugar como se o dominasse há eras. É possível sentir esse conhecimento dele em cada fio de bigode, em cada dente podre, na liberdade com que circula pelo ambiente... Eis que o velho homem sobe as escadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saía em busca de alguma vassoura que sempre estava perdida pela casa e voltava sempre com alguma bem gasta e imprestável, reclamando do descuido geral com os utensílios de uso coletivo. Começava varrendo do alto da escada, juntava os restos de comida, as baratas mortas e os toletes grotescos que os cachorros largavam pelos cantos. Muitas vezes, no alto da madrugada, trôpegos, alguns se esqueciam dessas dádivas caninas. Pisavam sem querer, espalhavam a merda pelo recinto e por seus quartos. No dia seguinte, ressaqueados, destruídos, tinham de por todos os móveis para fora e lavar com água abundante todo o quarto, putos da vida, quando não o banheiro também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois cachorros, coitados, há anos comiam a mesma ração barata, inssossa e asquerosa que o dono do cortiço lhes servia. Vezenquando alguém corria o risco de dar algum resto de comida, o que rendia um dia inteiro de perseguição débil de ambos atrás do benfeitor em busca de mais comida de verdade. Comiam de tudo. Ovo, pão, queijo, cascas e restos de comida não aproveitados... qualquer coisa era melhor que aquela ração horrenda. O pior é que esta ração causava-lhes uma desinteria eterna que provocava uma merda gigantesca, brilhante, gordurosa e cremosa que, como manteiga no pão quente, se espalhava com facilidade pelo chão e só saía com muita água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lourival tinha de juntar estes toletes de merda, os restos de comida recusadas pelos cachorros, as baratas mutantes da lapa que recorriam ao cortiço como cemitério ritual e as guimbas de cigarros, vedar tudo em sacolas plásticas de mercado e dispensá-las na lixeira da rua, pela enorme quantidade de moscas e pequenos insetos voadores atraídos por estas iguarias. Voltava com irritação febril. Enchia baldes e baldes de água e começava longa esfregação, usando algum sabão em pó de qualidade duvidosa e preço promocional, para trazer a dignidade de volta àquela feliz zona do cortiço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez por ser o seu subsolo e limite, aquela região da vila também costumava agregar grande contingente de pessoas. Não vou me dar à infrutíferas analogias filosóficas, até mesmo pela própria metodologia de quem vou usar de exemplo, mas aquela zona, por tão limítrofe inclusive com o próprio bairro, quase caindo de Santa Teresa e parando nas esquinas fedendo a mijo da Lapa, pregado no morro, aquele puxadinho improvisado e minúsculo parecia aconchegante quase à bachelardiana. Velhos alcóolatras desempregados vinham pedir dinheiro emprestado a Lourival, não tão jovens rapazes vinham jogar xadrez, parte dos moradores dos outros andares vinha cozinhar ou guardar alimentos na geladeira coletiva...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lourival terminava a limpeza com seu corpo senil reluzindo suor, um mal humor irreparável até o primeiro gole de cachaça. Tomava uma ducha, ligava seu rádio e, como bom mineiro apreciador de cachaça, tirava de algum esconderijo seu mini-pet de pinga, por seu atual contexto econômico e geográfico, Caninha da Roça, de cheiro inenarrável, vomitolento de antemão por pensamento. Cortava algumas rodelas de limão e, sem açúcar, iniciava seu ritual dominical de embriaguez e um possível bate-boca ao final do dia com algum dos indolentes que participara da patuscada na noite anterior e que largara toda a sua área imunda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começava a beber, sentado ao lado da mesa de ferro, dessas de botequim antes da explosão do plástico pós-Collor, e, à medida que se animava com a música e o álcool, desencadeava a feitura do almoço. Lourival prepara um carré divino que, muitas vezes, parece ficar melhor proporcionalmente ao grau de sua embriaguez. Tempera-o com esmero, enquanto bica sua cachacinha e deixa as tiras de carne descansando por entre especiarias escolhidas à dedo. Outra especialidade do Lourival é o feijão. Em noites de sábado que ninguém fica no cortiço e o pobre don não tem dinheiro, ele separa vasta sorte de carnes, deixa-as de molho para dessalgar, dorme bastante bêbado e acorda cedo, ainda embriagado pela noite anterior, para concluir sua alquimia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É metódico, talvez como todo homem sozinho, com ritual apurado. Creio que se cozinhar sóbrio, sua comida sairá uma lavagem. Por seus métodos, acaba pagando o pato, e tendo de fazer toda a faxina dominical, já que todos ainda dormem, com a cabeça latejando e o quarto empesteado a álcool da noite anterior. Exceto o Salviano, que está virado, insone, ouvido pregado na porta, tentando escutar o que falam dele. Para o Salviano, os finais de semana são um completo e absoluto inferno pessoal. Sabendo que todos ficam em casa boa parte do tempo, vive um sentimento de desespero pela inevitabilidade de que todos estão conspirando para seu infortúnio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um bravo e solitário lobo contra uma multidão de gentios de modos boçais e sem a menor inclinação artística como a dele, Salviano fica paralisado, sente-se a minoria oprimida. Com a rigidez e concentração de um faquir, prostra-se dentro do quarto em absoluto silêncio, apenas o radinho ligado, numa meditação profunda buscando encontrar do lado de fora, na confusão de latidos, grunhidos e outros urros dos animais que circulam pelo cortiço, o seu nome, o retalho que possa ser costurado em sua sofisticada teoria de golpe que armam contra ele. Mija dentro de garrafas plásticas guardadas para estes dias, faz uma garrafa de café para não pregar os olhos e recolhe o máximo de mantimentos não perecíveis em sua cabana para a empreitada, como se fosse para a floresta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa floresta, mental, terror psicológico, o toma de maneira arrebatada. Sua viagem xamanística pelos confins escuros de seu quarto imundo e sua mente paranóica o tomam de vertigem, fazendo às vezes o exercício insuportável. Desiste das meditações, sai do quarto a reclamar do barulho, falando barbaridades, escarrando no chão, como neste dia, em que cometeu a estúpida atitude de regar o telhado de zinco com água, ‘para amenizar o calor’ – criando goteiras nos quatro quartos, na zona de convivência e gerando ódio coletivo de sua estúpida presença. O exército de um homem só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta ocasião do refresco do telhado, vários homens estavam reunidos ao redor do fogão, filando cigarros uns dos outros, pegando cervejas a fiado na venda do cortiço, escutando música e conversando. O pobre diabo sai, indignado da gritaria que fazem em sua região. Entretanto, é a única cozinha coletiva para 14 quartos (destes, apenas quatro possuem algo próximo de uma cozinha, com fogareiro, pia improvisada e geladeira). Domingo é um dia familiar e para estes homens o cortiço é sua família, postiça, provisória, quando da solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mais velhos contam de suas aventuras sexuais, os mais jovens jogam xadrez, fala-se das montanhas de dinheiro que ninguém ganha de verdade, fala-se da comida, da partida de futebol, conversa-se sobre a péssima qualidade do cortiço e os moradores incríveis que por lá passaram antes. E enquanto isso a embriaguez flutua numa crescente. O cretino do Salviano sai do quarto, todo amassado, indignado daquela festa, da comunhão das almas. Tenta algumas abordagens, mal-sucedidas, feitas na defensiva, dificultando qualquer simpatia da parte daqueles que estão ali. Chega conversando sobre o barulho que todos fazem, sobre a gritaria, a bagunça, aquela pequena multidão apinhada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de amplamente ignorado individualmente, inicia um infrutífero debate em voz alta, rasgando o ambiente, cortandos os petits comitées em curso, convocando alguém, aleatoriamente, para uma conversação, quase um desafio. Em geral convoca ao Lourival, seu rival íntimo, e dessa vez não fora diferente. Comentara algo acerca da música alta que Hector, o vizinho do quarto da frente do Salviano, escutava de forma inconveniente, um assunto recorrente. Entretanto, fizera isso em presença de Hector, estratégia estúpida e deliberada, fazendo-se como que ignorando a odorenta e ilustre presença do conviva peruano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rapidamente é rechaçado coletivamente, sai caminhando por entre as pessoas de forma débil, molóide, como se fosse um mendigo ébrio. Escarra ao lado do fogão, vai até a pia, sonoramente repete o processo. Uma tensão se cria. Ele fala em voz alta sobre o calor, “meu, como está quente hoje...”. Ele é como o bandido que entra no bar de velho oeste fazendo gracejos contra todos os outros homens que ali estão, desafiando-os. Sobe as escadas reclamando do calor. Do andar inferior, é possível ver Salviano passando de um lado para o outro, exatamente como um mendigo, trôpego, débil, conversando sozinho, discursando para uma platéia imaginária sobre a moral, o mundo e os bons costumes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus cambitos vão cruzando a fresta do alto da escada, arrastando cadeiras, fazendo ruído, resmungando alto para que alguma platéia o acompanhe. Estão todos entretidos com seus afazeres dominicais, aquela vida lenta, pacata e ressaqueada de domingos de muito sol. É lamentável e ao mesmo tempo dadivosa a presença de Salviano. Sua debilidade física e mental são prova de que é possível se virar, mesmo caminhando rumo à completa errância. Mas isso só se saberá com o passar dos anos, donde não tenho a menor intenção de encontrá-lo... Enquanto vai mourejando dentro de sua cabeça, passando os dias como uma pessoa desagradável para a maioria das pessoas ao seu redor, ele segue vivendo, apesar das dívidas, apesar da fome, apesar de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a semana, como Lourival está trabalhando, Salviano se sente um pouco senhor de seus domínios. Pode sair, pensar na poesia das coisas, andar pela casa conversando com as pessoas, refletir sobre a poesia do mundo e os textos que lhe foram encomendados pelos irmãos Barreto e por Almodóvar. Infelizmente só ele não compreende que as pessoas, em geral, não querem conversar com ele. Travou uma amizade completamente estúpida com Cauã, um tipo insuportável. Cauã mora no andar de cima, aluga um quarto e faz uso da cozinha e do banheiro coletivo do andar debaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Musicista, criado em família de classe média-alta, Cauã acredita estar mudando o mundo. Largou o conforto da casa dos pais no Leblon, largou o conforto de comer carne, largou o conforto de um trabalho careta. Se auto-denominaria um abnegado, se essa parcela de adolescentes facistas nascidos no Leblon soubessem da existência da idéia de abnegação. Continua um típico menininho mimado do Leblon. Apenas não pega ondinha, loiras oxigenadas e nem mora no aprazível bairro de Manoel Carlos. Entretanto, odeia negros, pobres e toda a escória da sociedade com asco implícito em sua fala esotérica e pseudo-filosófica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua amizade com Salviano serve apenas para que ele possa fazer chacota da cara do infeliz. Escuta-o sério e faz comentários cretinos na mesma seriedade, mas com o intuito de fazer-lhe troça. Salviano sempre leva-o muito em consideração e raramente percebe que está sendo fortemente zoado. Certa vez, um vizinho nosso, um alcóolatra que tinha a mãe louca e era obrigado, por uma combinação que fizera com o pai (para que este bancasse o aluguel no cortiço), a ter de cuidar da mãe semana sim, semana não, ligou para os bombeiros falando que a mãe tivera um ataque. Ela apenas estava louca, como sempre. Ele, entretanto, queria sair para beber. A opção mais rápida, para ele, se não me engano conterrâneo de Cauã, era acessar algum aparelho do Estado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contida por enfermeiros, a mulher fora atirada dentro de uma ambulância sob protestos de não ser louca. Cauã, vizinho de porta do rapaz alcóolatra, fora enfático: “Não somos obrigados a conviver com uma louca, o Estado que se vire para cuidar disso” (ou qualquer coisa do tipo que crê na existência do Estado para a higienização social). &lt;br /&gt;Esta mulher era um fenômeno. Irritadiça, de modos intempestivos, passava os dias numa solidão profunda, exceto por seu rádio ligado no volume máximo, sempre fazendo longos discursos saudosos sobre a vida de estrela de tv que ela tivera. Certa vez, o alcóolatra (que não lembro o nome e é tão insignificante que sequer vou inventar um nome para ele) saíra para beber e o Lourival tentara fazer graça com a louca. Um pequeno caos se instalou no cortiço. Os temores de que aquele jovem atlético e alcóolatra da zona sul pudesse tentar matar o velho Lourival tomou a todos de pânico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, ovo contado no cú da galinha, Lourival sabia que estava a mexer com uma louca e que, afinal, se o rapagão chegasse bêbado e escutasse a mãe falar que o Lourival tentara comê-la, ele simplesmente ignoraria o que a velha tivesse dito como ignora 99,99999% de tudo o que sua mãe lhe diz. Lourival neste dia se recolheu para seu quarto, continuou tomando sua pinguinha, vendo programa esportivo da tv aberta e adormeceu de porta entreaberta, como uma criança, exalando o hálito dos sozinhos e dos cornos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O alcóolatra e Cauã são duas conjugações de um mesmo processo. Jovens, estúpidos, com idéias facistas na cabeça. Ambos hare-boa, pseudo-hippies, amantes dos anos sessenta, de Janis Joplin, os astros estão confluindo, a natureza é linda e eu sou o cara legal, fizeram com que as quadraturas astrais os jogasse como vizinhos neste cortiço de Santa Teresa – oh, um bairro tão cool. Talvez exatamente por tantas coincidências cósmicas, pouco se falavam entre si. Compartilhavam, afinal, o segredo sinistro de terem nascido cheios da grana e quererem parecer favela hype, artistas de Santa, gente descolada e desapegada de bens materiais - senão jamais poderiam pegar artistas gringas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cauã, talvez movido pelo terror deste segredo em comum que ambos partilhavam, odiava ao alcóolatra. Cauã também era incapaz de ser amigo dos moradores eternos do cortiço. Gente preta e pobre (duas coisas que ele odeia sem declarar, obviamente, fazendo sempre um bom mocismo de dar bons-dias para todos, como aprendera com sua mãe na forma de lidar com subalternos como zeladores, empregadas domésticas e todas as outras profissões servis), ele usa da artimanha retórica para conviver em paz com sua ideologia impregnada. Odeia a Lourival porque o acha um ladrão e de moral duvidosa, as únicas coisas que um negro suburbano (no caso do Lourival, pior! Imigrante e idoso) pode ter lapidado em seu espírito durante toda a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta ressaqueada jornada dominical, tivera longa briga com Lourival por conta de &lt;br /&gt;panelas e facas. Este sempre lavou a louça que todos deixam para lavar depois (por bebedeira, preguiça crônica ou pela existência do velhote) pelo motivo óbvio de pratos e panelas imundas serem alvo de ratos. Desde que cheguei ao cortiço, o próprio Lourival veio me falar que se eu sentisse falta de algum utensílio doméstico que o fosse procurar pois talvez ele tivesse lavado e guardado com ele para evitar que baratas e ratos ficassem passeando pelos objetos de cozinha. Isso sempre fora um ponto comum. Nesta noite de domingo, de debate esportivo na televisão aberta, Lourival bêbado, trôpego e feliz, estava escutando música brega altíssima, encerrando suas religiosas atividades etílicas dominicais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cauã, que não encontrava uma panela sua e muito irritadinho pela felicidade do velho, descera batendo os pezinhos no chão e fora dar piti para o velhote, falando que tinha sido roubado por ele. Como bom leblonense (ou lebloeta, sei lá) facista, tratou com o tipo como se deve tratar um tipo desses, em sua cosmologia: “aí mermão, tô cansado de tu, você é um ladrão e eu quero minha panela de volta” e ficou lá, cheio de raivinha gritando para o homem. O dono do cortiço, que achava que a beleza inata e zona sulzice do rapaz embelezam e engradecem em inteligência a sua ‘pousada’, fora tirar satisfações com o velho também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lourival apenas repetiu como das dezenas vezes que falara com todos, que apenas guardara a tal panela. Entretanto, isso manchou mais uma vez a relação entre os dois, que já estava bem gasta de outros carnavais. Essa fora mais uma das milhares de brechas que Salviano tivera para se aproximar de Cauã e tê-lo como cúmplice das atrocidades do velho. Ao Salviano, não se tem o que culpar o medo e o homo-erotismo que projeta no velho Lourival: Salviano, em crise de idade, aos seus quarenta e poucos anos, desempregado e remotamente cônscio de seu fracasso como artista, percebe que Lourival se sustenta como velho e é trabalhador, de um ofício rude e mal-remunerado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um artista como Salviano se enternece ao constatar cenário tão abjeto e, quiçá, brejeiro. Desse tipo de cena, ele encontra alimento para a alma intempestiva de artista. Aquelas mãos senis e calejadas mourejando dia após dia, suas idéias rudes, é tudo tão atraente, belo, poético... entretanto Salviano precisa conviver com este ícone proletário todos os dias. O que seria um ideal poético, vira a dura realidade, um enfadonho casamento. Ele gosta dos povos bravios, sendo ele um intelectual preocupado com as massas, vindo dela. Entretanto, quebra todo o romantismo essa convivência. Sem contar que o velho pode ser, por questões etárias, uma projeção horrenda dele mesmo, que quer ser um rapazola para sempre. São apenas conjecturas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só sei que a imagem daquele senhor de idade, imigrante das Minas Gerais, negro, pobre, sub-empregado, morador eterno do cortiço, alcóolatra e trabalhador, incomoda a Salviano e Cauã de forma especial. Talvez por ambos serem artistas inatos, poetas de uma geração. Cauã pela condição de macho alfa natural que crê carregar em seus genes. Salviano por seu desejo de ser de uma elite, intelectual e artística, mas também por sua crise de meia-idade e por seu fracasso ululante nessa escalada social. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Salviano, imigrante da Bahia para São Paulo, homem fracassado e tido por muitos, inclusive eu, com um tino natural para a mendicância, vive uma crise de encarar a realidade e viver seu sonho. É incapaz de perceber que o ódio comum que o une a Cauã é o mesmo que faz com que este jamais o considere um amigo seu. Para Cauã, Salviano é apenas um paraíba paspalho que ele pode fazer troça todos os dias, além de, como gorjeta, ter a higienização de consciência de, nalgum momento que for bancar o papel de alternativo (como quando fica de urubu ao redor das jovenzinhas que freqüentam a Lapa), poder falar que até tem um amigo paraíba – seu personal-pobre-de-estimação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem. Apesar desse cenário, Salviano procura a Cauã como a um amigo, um guru, ou um tipo de alguma superioridade. Escuta a vasta defecação oral que Cauã profere com esmero e imponência, ensinando-o as formas como ele, Cauã, acredita serem as mais toscas para levar donzelas para a cama. Cauã sempre faz o joguinho com Salviano de falar, com muita austeridade, exatamente o contrário do que ele acha certo – sendo, de qualquer jeito, uma grande merda. Talvez seja uma forma de proteção, de evitar que um tipo reles possa ter comportamentos parecidos com os de tão dintinto e desapegado rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chama desta amizade é alimentada sempre pelo ódio ao velho mineiro. Geralmente Cauã cede atenção ao pobre diabo enquanto está lavando roupas, cortando as unhas ou cozinhando alguma coisa vegetariana, pasta inssossa cheia de temperos, orgânica e de origem indiana. Como Salviano tem todo o tempo do mundo desde que abandonara o ofício plebeu de garçom para se dedicar exclusivamente à arte, ele tinha basicamente as horas do mundo para andar atrás de Cauã perguntando-lhe coisas sobre a terra, os céus, as estrelas e xoxotas, bem como tentar relatar a grande perseguição que sofre por parte de Lourival. Neste fatídico domingo, entretanto, ele não poderia contar com a ajuda de seu fiel amigo, que dormia, enquanto o panacão ligava a mangueira, golfando água de forma débil até ganhar consistência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pinga já rolava solta no andar debaixo, devia ser no máximo meio-dia. Daqueles cambitos que circulavam no andar de cima resmungando, viera a genial idéia de regar o telhado do cortiço, para amenizar o calor dominical. Salviano ligara a mangueira, despejara litros e litros de água, até que milhares de goteiras cagaram a comida, o xadrez e a tarde que se iniciava no cortiço. Plantação de zinco à vista no cortiço. Ponto pro maluco e telhado regado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-1744524795197577319?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/1744524795197577319/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=1744524795197577319&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/1744524795197577319'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/1744524795197577319'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2010/01/nao-tao-breve-passeio-dominical.html' title='(não tão) Breve passeio dominical'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-9035278333177581064</id><published>2009-09-28T19:43:00.001-07:00</published><updated>2009-09-28T19:43:47.940-07:00</updated><title type='text'>do fundo da madrugada do andarahy</title><content type='html'>Mundos são fundados, postos em existência plena e inteira, para se destruírem assim que nascem. O tempo me engole, companheiro, e torno-me seu escravo, seu servo, enquanto os dias passam voando, galopante. Ultimamente, vivo no silêncio da madrugada. Posso passar o dia inteiro acordado, quando a madrugada me chama, estou insone, estou desperto, estou entregue a seu silêncio e encanto. Silêncio que aqui, megalópole-chiqueiro de seis milhões de almas, nunca é a ausência de sonoridades. Os ônibus rasgam o asfalto errante e sinuoso na frente de casa o tempo inteiro.&lt;br /&gt;São gritos, guerras, estampidos de armas. Curral de escravos há séculos, a energia ancestral dessa cidade tem um componente pusilânime, sedento por mais caos. São muitas pessoas infelizes, companheiro, são pessoas que, muito mais que minha terra natal, passam a vida toda sonhando com uma experiência como a de Thoreau, Walden, ir pro meio do mato, sair da Babilônia. Aqui só os personagens de Manoel Carlos são felizes com o Rio da novela das oito. Todos odeiam isso aqui. Todos querem uma cabana na floresta, floresta que não existe senão em sonhos, com forno de microondas, miojo, tevê a cabo, internet banda larga e muito sódio na alimentação.&lt;br /&gt;Os carros rodam com as buzinas sempre pressionadas, berrando, desgrenhados, loucos, trânsito caótico. São milhões de pessoas nas ruas, infelizes, descontentes, insatisfeitas de uma forma muito pitoresca com relação ao mundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-9035278333177581064?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/9035278333177581064/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=9035278333177581064&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/9035278333177581064'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/9035278333177581064'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2009/09/do-fundo-da-madrugada-do-andarahy.html' title='do fundo da madrugada do andarahy'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-4408215575079041265</id><published>2009-09-28T19:40:00.001-07:00</published><updated>2009-09-28T19:40:49.378-07:00</updated><title type='text'>Era o Vieira</title><content type='html'>As condições pra alugar o apartamento são impossíveis...&lt;br /&gt;Depósito de três meses adiantados (mais de mil reais pra dar na hora... Até parece que alguém que vai alugar uma kit de 300 pratas tem esse montante...) e contrato de 30 meses.&lt;br /&gt;Tem proprietário que pergunta onde trabalho, se tenho carteira. Quando digo que não, lamentam e desligam a ligação.&lt;br /&gt;Tem coisa boa, que precisa de fiador local.&lt;br /&gt;Tem coisa barata, mas que é na baixa da égua.&lt;br /&gt;Tem muita coisa ruim no começo da zona sul, que é habitável...Mas exigindo tantos pré-requisitos, fica quase impossível.&lt;br /&gt;Um amigo meu se mudará pra cá em três meses. Começo de março começam umas aulas dele.&lt;br /&gt;Pensei em esperar, alugo um quarto&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-4408215575079041265?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/4408215575079041265/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=4408215575079041265&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/4408215575079041265'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/4408215575079041265'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2009/09/era-o-vieira.html' title='Era o Vieira'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-5337957314056203839</id><published>2009-09-27T08:27:00.000-07:00</published><updated>2009-09-27T08:29:27.289-07:00</updated><title type='text'>Alugo linda kit, com vista suntuosa</title><content type='html'>“Agora uma coisa lhe digo. O cara solteiro que aluga uma kit dessa, se fosse eu na sua idade, teria a obrigação de comer muita mulher”. Ele estava sentado num banco alto, uma perna levemente flexionada, as mãos unidas como se segurasse algo de valor, a cabeça apontada para um horizonte imaginário que antevia na parede branca da casa. Este é o meu senhorio, falando assim para mim e sua esposa, 15 anos mais nova, sentada ao seu lado. Essa foi a sabatina para que eu conseguisse sair de um quarto e me mudar pra outro com uma cozinha minúscula e um banheiro improvisado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A forma como falava era como se me alugasse um apartamento na mansão de playboy, numa casa suntuosa e cheia de mulheres ao redor, e não aquela casa velha com homens seminus. Ele tem quarenta anos e se intitula administrador de imóveis. Não sei qual foi seu exercício fraudulento para conseguir morar nesse cortiço. Ele simplesmente parece trocar a moradia que consegue pelo serviço de “administrar” duas casas velhas em Santa Teresa, fazendo um extra nas pequenas extorsões que faz no preço de cada quarto. Sempre que está só e encontra um grupo de homens, tenta falar de suas aventuras sexuais com mulheres muito mais espetaculares que sua esposa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta é muito jovem, morou aqui com o namorado, ambos projetos fracassados de hippies e, um dia, reza a lenda falada a boca pequena, ele pegou todo o dinheiro dela e caiu fora. Ela, sem dinheiro para pagar, foi se explicar a Stéfano, que resolveu lhe dar uma moradia provisória. Dessa moradia provisória, vieram gêmeos e os dois decidiram se casar. Celina é uma estúpida, fracamente desgarrada de sua eterna adolescência hippie pela obrigação de esposa, que cultua de uma forma velada, com argumentos de ter escolhido (e não ter sido escolhida) viver com um homem maduro e vivido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambos fazem um casal no mínimo patético. Pelas obrigações domésticas de administrarem um cortiço, não possuem uma vida social externa, exceto Celina que possui alguns fantasmas do passado que vezenquando vêm perambular pela casa acompanhados dos dois. Estes aproveitam a ocasião para circular pelos lugares como fazendeiros ricos e patriarcais mostrando suas posses humanas e materiais. Possuem uma relação ambígua com os moradores mais antigos, passando do ódio para a admiração em instantes, numa dependência compartilhada de serem os mais antigos num lugar que transpira o momentâneo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez pela completa clausura e abnegação do mundo pela obrigação de manterem a incrível casa velha, imunda e mal cuidada, acreditam piamente que seus imóveis são ótimos. Isso talvez seja corroborado pela incrível rotatividade de estrangeiros que não parecem se incomodar tanto com o aspecto mambembe de toda a casa, fato que alimenta uma aura favelada e turística ímpar. Crêem que podem intrometer na sua vida, dar-lhe ordens ou achar coisas, como Stéfano me falando da minha obrigação de comer muitas mulheres, a partir do momento que passei a alugar o lixo da “kit” dele, ou quando Celina veio me dar instruções de como fumar dentro de casa, para não estragar os móveis “novos”, que eles colocaram no quarto para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Stéfano é um tipo corpulento e vaidoso. Acredita-se incrivelmente inteligente e bem sucedido, em relação com os moradores fixos e eternos do cortiço. Atravessa um processo de calvície acentuado e tenta de todas as formas dissimular a força da genética e do tempo em sua cabeça. Quando fala, emposta a voz como se fosse um patriarca a falar para seus filhos, netos e parentes menores e administra uma modulação na voz que o faz sempre parecer saber de todos os assuntos que versa, sempre dando palestras que vão de futebol até a metafísica. Anda pela casa de forma grosseira e tipicamente autoritária. Este lugar é seu território e, tirando as gordas quantias que os estrangeiros que passam curtíssimas temporadas lhes paga, garantindo toda a sua inteligência em saber roubar dinheiro dos estrangeiros, aos outros ele decreta, em geral, uma relação de vassalos. Ordena aos moradores mais antigos e eternos desempregados que façam pequenos reparos na casa, ajudem com mudanças, ou então os mandam tocar música, quando têm convidados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais antigo morador daqui é sambista e possui um projeto para iniciar um bloco de carnaval, o que estimulou bastante Stéfano. Este já planeja iniciar conversas na prefeitura para que o bloco saia a partir do cortiço e desça até a lapa, já pensando nas estratégias de monopolizar a venda de bebidas alcoólicas e, talvez, ganhar um dinheiro extra com o turismo, pensando na perspectiva de ter um bloco carnavalesco saído não somente de Santa Teresa, mas de sua casa. No carnaval passado, fizera da entrada do cortiço um grande botequim, cheio de homens ébrios na entrada da casa, uma perfeita bomba relógio para que a qualquer momento tivesse alguma briga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Celina decidiu que é uma dona de casa e co-administradora de um empreendimento imobiliário. Vive enclausurada no cortiço, engordando muito, cuidando dos filhos junto com uma menina negra que pegaram para criar em casa. Esse é o discurso proferido por ela (para não soar uma Amélia que engravidou sem querer quando foi fazer um agrado para o cara que lhe deu abrigo) para não soar um aliciamento e trabalho de uma menor. Passa os dias vendo televisão, por onde pode se inteirar do mundo (cruel e) real e ter certeza de que realmente o planeta é uma merda. Seus discursos são patéticos e sua ideologia fede a naftalina. Num misto hippie e fascista, ela vai compondo um mini tratado do espírito humano e toda a sujeira que a rodeia, o que a obriga a ser sempre bondosa e generosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antenada com a última moda nos Estados Unidos e Europa, já tem a certeza de que morrerá de gripe suína, pois a vila recebe muitos estrangeiros. Poderá ter uma morte digna e hype, seguindo as melhores tendências mundiais. Não existe termo melhor para descrevê-la, além de cretina. Propõe assuntos esdrúxulos e os versa como se discursasse para uma platéia, mau hábito que aprendeu com o marido. Veio falar-me outro dia, que as crianças estão perdidas, de acordo com a legislação brasileira, porque o Estatuto da Criança e do Adolescente é um instrumento permissivo para que as crianças que serão os futuros mendigos do país não sejam castigadas da forma merecida. Criança pobre precisa apanhar, mas este instrumento absurdo que o governo criou para proteger pequenos bandidos não as deixa trabalhar para ajudar à pátria e tampouco permite os educativos castigos corporais que essas crianças merecem por não terem tido pais que tivessem garantido essa parte elementar da educação de um ser humano.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-5337957314056203839?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/5337957314056203839/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=5337957314056203839&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/5337957314056203839'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/5337957314056203839'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2009/09/alugo-linda-kit-com-vista-suntuosa.html' title='Alugo linda kit, com vista suntuosa'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-5191593143158691042</id><published>2009-09-21T18:53:00.000-07:00</published><updated>2009-09-21T18:58:31.902-07:00</updated><title type='text'>Superfreak</title><content type='html'>Depois de subir a ladeira, o calçamento urbano de pedras grandes, quadradas, virar à esquerda onde os ônibus quase acertam o muro da casa do vizinho, enquanto sobem alucinados, cruzando a mata semi-virgem de Santa Teresa, subo a escadaria larga de matinho crescendo entre as pedras, quase tapete de gramíneas no meio daquelas pedras-ruínas de casario velho e antiquado, de rocambolesmos e rococós, de flautas e sotaques ítalo-franco-hispânicos, torno à direita e caminho pelas escamas de pedra da serpente que corta o bairro. As ruas do bairro são sinuosas, curvilíneas, vão se acomodando aos morros, à topografia, intensa obra de engenharia pra mim, do planalto central, ver essas gentes se agarrando na beirada de morros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E caminho, caminho, caminho, pro alto e avante. Vou derretendo, até chegar somente o palito do picolé, no alto do morro, faça sol, chuva, neve. Sempre se derrete enquanto sobe pelas ruas-serpentes. Entro em casa e a primeira coisa que me toma de assalto é a suntuosa vista da cidade, urbana, concreto, luzes, aquela grande escultura. De longe, a cidade está tranqüila, linda, serena e imóvel. E depois de chegar ao cume da cidade, vou descendo as escadas de casa, cravada na beiradinha do abismo que cai na lapa, nas ruas imundas. Desço as escadas com as baratas voadoras da lapa, transgênicas, x-men, insetos gigantes de seriado japonês, voadores, pestilentos, batendo na minha cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vão surgindo os sons e aromas da vida em cortiço, as pessoas passando, seminuas, suarentas, cansadas, desempregadas, carentes. Todas são carentes, todas querem demais conversar contigo, mesmo com você tentando de todas as formas escapar delas. São como o suor, impregnam no corpo, viscosos, falando sem parar, te acompanhando enquanto você tenta encontrar o refúgio do seu quarto. E quando você o alcança, batendo a porta contra os corpos de gentes falando-lhe absurdos e querendo um pouquinho de atenção, você é tomado do calor do quarto abafado, do telhado de amianto, das janelas que precisam ficar fechadas para prevenir a praga das baratas mutantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Torna-se a abrir a porta do quarto e estão todos lá, dezenas de homens carentes, querendo conversar, querendo falar das coisas da vida, da vida de acampamento de exército, de homofóbicos, sexistas, anti-semitas. O convívio em cortiço com homens é o espaço privilegiado para acompanhar o pior das opiniões da humanidade. Todas as conversações mais asquerosas e nojentas são tratadas ali. Os homens agem como gorilas. Velhotes carentes, caras que têm vergonha de estarem na casa dos quarenta anos e agem como meninos chorões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reza a lenda que essa terra de homens já teve muitas mulheres, que elas circulavam tranqüilamente por aqui, também seminuas, apaixonando esses caras, apaixonadas por eles, falando línguas estranhas. Não consigo imaginar mulher alguma com esses homens. Enquanto isso, escuto um deles falando de mulheres, um dos assuntos preferidos nessas rodas maçônicas, de seita secreta, de homens que só têm à cachaça para recorrer, o carinho maior em suas vidas, acalentando seus corações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Louco, com desvarios em sua cabeça, escutando uma merda de reggae-rap-dancehall-rocksteady o dia inteiro, toda hora, todo minuto. E ele escutar significa todos escutarem bem alto, bem chato, bem invasivo. E te puxa pela mão, quer lhe mostrar as fotos que alterou em photoshop para parecer mais jovem, quer falar que é amigo de Manu Chao, quer cantar a nova música que fez, uma merda de música que fala que planta uma merda de maconha em casa, lamentar o apartamento abandonado em Ipanema, da vida nojenta e asquerosa de playboy que hoje é vivida pela metade, tendo que morar num quarto minúsculo num cortiço em santa Teresa. Mas em Santa Teresa, que é o que importa. Seu quarto e suas roupas fedem um aroma adocicado, absurdamente nojento, asqueroso, vômito no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um quarto absurdamente imundo, mal cuidado, feio, desarranjado, projetando todo o caos interno de um cara criado a leite com pêra e ovomaltino, de quem chora que não tem um centavo no bolso, lhe fuma um maço de cigarros, come da tua comida e no dia seguinte chega de adidas de duzentas pratas, novinho em folha e vai para frente do espelho, como uma menininha de quatorze anos, experimentar roupinhas para escolher com qual sair. E sai do quarto, interrompe as conversas dos outros, pede para que opinem como consultores de moda, não escuta a ninguém, volta para o quarto e se troca novamente. Mas, ah, o chapéu está combinando com o tênis. Assim fica parecendo que me preparei para sair de casa, não posso sair. E volta para o quarto de novo, após interromper a conversa dos outros pela segunda vez sem a menor cerimônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso o outro trintão desempregado e paranóico (literalmente, clinicamente, quimicamente, psicologicamente, sociologicamente, matematicamente paranóico), versa sobre a queda dos anjos do firmamento, como Edward Gibbon falando da queda do império romano, usando pitadas de sutilezas de uma poética caetânica-glauberiana, um poeta nato, genuíno, dessa coisa atávica sem simbologias, pós-moderna, pós-contemporânea, de relações fluidas e sensações infinitas, entende, bicho? Essa poética do que é e do que não é? Ééééééééé... Ô meu! Bahiano de nascimento, paulista de criação, odeia a ambos, bahianos, paulistas, não é a alma do que ele considera brasileiro, porque o brasileiro é bom, apesar de burro, atrasado, poeta, louco, mendigo, entende, meu? Ééééééé...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E coça o saco, estica bizarramente o pé e o coloca sobre a mesa onde todos comem, para me cochichar que todos na casa são uns porcos nojentos e que caras limpos e asseados como eu e ele inevitavelmente sofreremos vivendo ali. Puxa um grande escarro quase do canal retal de seu ânus e vai cuspir na pia onde se lava a louça ou no ralo em frente à porta do meu quarto. Na mesma pia onde ele acabou de jogar fora toda a borra dos cinco litros de café que ele faz para deixar um mês pegando mosca e mofando dentro de seu quarto também imundo. Em seu quarto, ele guarda garrafinhas plásticas d’água, pois ele odeia sair do quarto em dias frios para mijar, e nesses dias de março no Rio de Janeiro têm feito uns quarenta e cinco graus negativos por vários dias. Ele vai juntando suas garrafinhas cheias de urina no parapeito da janela, até que o vento as empurre para o terreno baldio abaixo da casa. Outro dia o dono do terreno devolveu-lhe algumas garrafinhas cheias de mijo, afinal de contas ele deve ter um apego afetivo pelo mijo dele. Saiu de seu corpo, é quase seu ainda, apesar de não fazer mais parte dele. As zonas de tabu de caras asseados, como eu e ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E novamente retorna a Barbie trintona com seu tênis branco e novo, suas roupas imundas e fedidas, para perguntar se assim ele está bem. Olho para ele, meio gordo, as carnes já bem envelhecidas, o rosto cheio de vincos, de quem já bebeu demais e se cuidou pouco, e uma roupinha de adolescente de colégio, um bermudão abaixo da cintura quase mostrando suas bolas, uma camiseta toda recortadinha, milimétrica, para mostrar o leão da tribo de Judá em seu ombro, o bonezinho de lado, como deve ser um jamaicano cantor de dancehall que leva seu estéreo no ombro contrário à aba do boné. Uma boneca (jamaicana) preparada e vestida, de quase quarenta anos. Parece aquelas velhotas de oitenta, noventa anos, com roupinhas de garotinhas, cheias de maquiagem no rosto caquético. E pela milionésima vez falo que está ótimo, ele se convence. Desliga a merda de reggae-dancehall-rocksteady-rap-hip-hop-trip-hop e vai embora, embonecada, pensando na namoradinha adolescente de 25 aninhos, jovem, na flor da idade, com os hormônios à flor da pele, uma tormenta em sua cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E antes de sair versará longamente sobre as amigas piranhas que ela tem, todas solteiraças, lindas, maravilhosas, sedentas por sexo sujo, saindo com ela, levando-a para o mal caminho, para o caminho do adultério. Vezenquando o desejo dele é mais pelas amigas que pela namorada, muito decidida por ele, apesar do joguinho sujo e infantil de deixar todos os homens a bolinarem e darem em cima dela na frente dele. E ele se sente um velhote, quer mostrar os amigos, a banda de Manu Chao, mas ele teme que ela se deixe ser encantada pelo baterista ou qualquer outro da banda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fica o outro trintão, o poeta glauberiano-caetânico, que agora começa a falar que tanto a boneca jamaicana como o velhote que mora na nossa área conspiram contra ele. Afinal, todos estão conspirando para que sua vida seja cheia de infortúnio. Mas ele é guerreiro, ele é mais forte que eles. E enquanto fala que o velhote malvado e doente, cheio de sutilezas e meias-palavras, não deve ser digno da minha confiança, chega o tal. O coroa chega cansado, é o que mais trabalha de nós quatro, seguramente, até porque só trabalhamos eu e ele. Os outros estão desempregados, com muito tempo para tramar todo tipo de conspirações em suas cabeças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coroa trabalha em serviços braçais nas casas de ricaços da barra da tijuca. Vê toda a riqueza e pujança dos nojentos da barra todos os dias. Chega-nos contado de casas onde trabalhou fazendo sistemas de vídeo ou segurança como sendo as casas em que ele já morou. Conta os detalhes das suas casas imaginárias, dos dias que ele foi rico, que morou em coberturas em Ipanema, Copacabana e da barra. Conta dos empregos que nunca teve, os empregos que eram de seus patrões, fala como era difícil aquela época, de muito trabalho e muito dinheiro. Hoje ele é feliz desse jeito, na verdade. Morando num barraco imundo com pessoas loucas. Exceto ele é louco, claro, me confessou outro dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E começo a perceber como o poeta glauberiano-caetânico estava certo. O homem é sutil. Como um elefante em loja de cristais. Chega falando de mulheres, no palavreado mais asqueroso da face da terra, da forma como as phode, como lhes tira todo o dinheiro, porque mulher não vê um centavo dele. Mulher tem que o sustentar. E fala, fala, fala. O poeta começa a falar também, com uma sutileza de poeta romântico, de como gosta de phoder mulheres, comê-las bem sujo. Não param de falar disso, varam as madrugadas conversando sobre as mulheres espetaculares e cheias da grana que eles comem sempre, que os sustentam, que lhes enchem de presentes, como a caneca com uma impressão “exclusivo do meu grande amor” que o poeta possui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este possui uma tensão homoerótica pelo coroa. Fica-o observando o tempo todo e atribui a uma loucura implícita o desejo de sempre estar conversando com ele. Outro dia, enquanto esperava um amigo para sair, ele parou-se ao meu lado e ficou observando de longe o coroa, de shorts de tactel, sem camisa, dando em cima da gordona que possui uma vendinha no andar de cima da casa. Observava-o de olhos brilhando, um sorriso infantil no rosto, braços cruzados, encostado no parapeito do terraço. Virou-me e falou da energia do velhote, que supostamente é muita, e rogava-me que o imaginasse um guitarrista, a energia dele numa banda e ele de guitarrista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fitei o coroa de pé, meio corcunda como todos os velhos, encurvado sobre a gordaça bizarra e chamando-a de meu amor, gesticulando com a debilidade física de um velho alcoólatra, e o imaginei vestido como os caras do Kiss, ou então como os caras do Black Sabbath ou do Deep Purple ou então com os cabelos do Morais Moreira ou do Pepeu Gomes. Desde então, sempre que estou deprimido, imagino a energia dele como guitarrista de uma banda. E posso rir um dia inteiro só com isso. Mas para o poeta glauberiano-caetânico, aquele é um sentimento quase íntimo, um fetiche oculto, por um velhote de bigode e dentes podres. Uma paixão no mínimo enternecedora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-5191593143158691042?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/5191593143158691042/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=5191593143158691042&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/5191593143158691042'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/5191593143158691042'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2009/09/superfreak.html' title='Superfreak'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-5853092988081956235</id><published>2009-09-21T18:48:00.000-07:00</published><updated>2009-09-21T18:52:59.143-07:00</updated><title type='text'>Rapidinhas...</title><content type='html'>Veio de um movimento em parábola, o braço em ângulo de 125° do tronco e o primeiro também a 125° do antebraço, a mão direita espalmada. A palmada seca no lado esquerdo do rosto, levando o pescoço a girar pelo próprio eixo do corpo nuns 45°. Luzes instantaneamente tomaram sua visão em raios partidos. Da ida, rapidamente todo o corpo se realinhou, com todo o nojo e ojeriza por ela. Lobão passou a mão pelo rosto enquanto ela berrava impropérios para ele. Estava satisfeita, sem dúvidas, de levar a cabo uma cena no mínimo picaresca. Mas o que se passava afinal era algo simplesmente patético. Continuou gritando, babando, ébria e descontrolada. Seu amigo, na cadeira ao lado, tentara alguma reação pacificadora. As mesas ao redor que acompanhavam o vômito patético riam agora mais alto, afetados.&lt;br /&gt;Ele tomou o copo de cerveja na mão e levou à boca novamente. Estava quente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aguardava os vinte e sete andares terem sua revista pelo quadrado de aço até chegar ao térreo. Gado solto no pasto rico de pedrarias portuguesas. Sai o ascensorista, sorriso largo, encostando-se na parede branca sem se conter nem esconder a risada.&lt;br /&gt;- Aí – falando com os outros funcionários em roupa cor de chumbo –, o muleque perguntou o que era preciso fazer pra ter um trabalho como o meu. Sabe o que respondi? É SÓ NÃO ESTUDAR! HAHAHAHAHAHAHAHA...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-5853092988081956235?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/5853092988081956235/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=5853092988081956235&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/5853092988081956235'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/5853092988081956235'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2009/09/rapidinhas.html' title='Rapidinhas...'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-4699547941724165621</id><published>2008-08-04T22:20:00.001-07:00</published><updated>2008-08-04T22:20:57.433-07:00</updated><title type='text'>Nos trapos d'orange</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;Nado no fundo do deserto imundo, de paisagens cálidas, efervescentes, de transtornos delirantemente gentis, atrás da forma e força únicas que movem, o anima que permeia toda a plenitude do transbordamento do espírito, em lânguidas línguas de flamejar suave e ao mesmo tempo crepitante, num solilóquio vulgar de têmporas inchadas e indóceis a qualquer flanco de fluidez. Os contornos são retilíneos, quebrados, cubistas, sólidos até demais. E no disforme flagelo das sombras cândidas, a serenidade dos confortos mais íntimos e perenes da satisfação de plúmbeas lembranças que, em sépia interrogação, de simiescas inclinações, demarca o próprio desaparecimento da espécie. Quiçá tenhamos o orvalho da alvorada. Na crueza das pás elétricas, todo o globo é revolvido em espasmos de tentativas de espíritos. Restou-nos tão somente a lágrima dura, expurgo dolorido e danoso das cavidades mais íntimas da nossa vã tristeza momentânea. Espasmos de assombrosa forma retesada, restam suculentas tríades de bromélias feito bocas imundas, torpes, lacrimejantes, tentando dali tudo sufocar, pelo ensurdecedor silêncio da angústia. E lá se foi o caminhão de lixo, às duas da manhã.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-4699547941724165621?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/4699547941724165621/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=4699547941724165621&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/4699547941724165621'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/4699547941724165621'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2008/08/nos-trapos-dorange.html' title='Nos trapos d&apos;orange'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-4749152481754043056</id><published>2008-05-17T11:26:00.000-07:00</published><updated>2008-05-17T11:27:48.906-07:00</updated><title type='text'>Lampejos</title><content type='html'>Eis a onda do momento. Agora, não me resta tempo para nada no mundo. A completa imersão e transbordamento das coisas. Tirando as horas de sono, que não são apenas sono, mas desmaio ante o mundo, tenho um vácuo de 48h semanais dispensadas para um McDonald's destinado apenas à classe A ou para os B que são incapazes de pagar sequer o serviço. Entrei na vida de merda da cidade grande, engolido pela fuligem, fumaça, escapamento de motor, cigarros tragados pelo digital na Lauro Sodré que calculam cada segundo dispensado dos quinze minutos restantes para retornar ao serviço, ébrio de sono, fraco, débil e cansado. Lá se foi o matiz de vivacidade, de alegria e compenetração poética. Vampirizado pelo mundo. O pedaço de carne que vive nalguns metros quadrados, circulando a esmo sem parar, aguardando a hora de partir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vive-se imerso na completa perdição mental e afetiva. Foi-se toda a reflexão. O negócio agora é apostar, e alto, no desespero dos dias. Eis o desafio indecifrável. Quando do tempo inteiro, completo e tedioso, o desgosto. Agora, a precisa percepção de que a guilhotina está ali, afiada, sedenta, inteira, atrás de cada canto teu, capaz de decepar ao meio um fio em todo seu comprimento. É a luz fluorescente, é a hipnose sem fim. Estar jogado na própria sorte, ver-se completo na necessidade de inteirar tudo o que lhe falta sem ninguém por perto. E ver-se ontologicamente na sina de algo sem volta. Destruição perene. Das carnes, dos sonhos, dos passos, das solas de sapato. Acabado, frangalhos de noites sem fim. De noites angustiantes das 18h até as 2h. You lose.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O confronto deliberadamente proposto, de cruzar os próprios sonhos vividos comodamente vezenquando com a dura e crua noção cotidiana de acordar, comer, viver, pegar sempre a mesma linha, ver sempre os mesmos prédios, chegar sempre no mesmo lugar e seguir sempre, irredutível, impassível, fazendo crer os próprios enganos, os próprios erros. Não são quaisquer besteiras. São os erros tomados para uma vida inteira. Quando decidimos que vamos correr o risco de errar, vemos que não tem o menor problema, apesar da certeza de que sempre poderemos escapolir, fugir disso tudo e esquecer que houve erro. Pois é. E nessa roda viva, o que importa é esse lirismo calhorda e cínico. Fortalece, seguramente. Porque não é apenas lirismo calhorda e cínico. É paixão, é desprendimento, desterritorialização e etcaetera e tal. Emerge uma leveza que é incrivelmente poliforme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As coisas se reconformam, tomam novo sabor, como vinho em barrica velha. Porra de sabor abaunilhado, de epicentro babacóide e perfeccionista com o próprio tempo...Impossível ficar sereno com isso tudo sem terapeuta, sem recursos desmoralizadores. O lance mesmo é jogar tudo pro alto, pra fora. Quem se arriscar a pegar, pega. E nisso tudo, uma pureza, uma vivacidade que não tem nada no mundo que é capaz de suprir. Convivo com o completo desejo realizado, sim, e a completa paumolescência da dura realidade das coisas. Fascinante. Encantador. Viajo pelo tempo, colapsado, pulsante, errante, apaixonado. Lindo, lindo, lindo. Em tudo que está errado, sobretudo nas escolhas medonhas e pouco recomendáveis, vejo que o desgaste e a terra seca ainda são-me mais importantes que a porra toda que podia ter rolado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria tão incrível, e por isso penso agora nisso, ter pensado ou imaginado nos porquês de ter feito tudo isso. Turbilhão. Caralho, vivam os turbilhões. Os desarranjos, as conversas tortas, as passagens mal pagas, os descaminhos. Tchau vias de quatro faixas, planos cartesianos. Seríamos incapazes de permanecer unidos. Não podia com nada. Não posso. Alergia. Quem sabe não faço tudo novamente, para outro lado? Agora, que é real, que é possível...Jogar-me por aí, ignorar medos, temores, inseguranças. Ou usá-las exatamente para isso. É incrível a vetorialidade do mundo. Múltipla, incerta, imprecisa. A cabeça flutua, voa para longe, perdida. Arrependo-me, em parte, como em qualquer metade, de ter largado as coisas mais seguras do mundo. Era tudo muito seguro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É possível dimensionar o problema disso tudo. Era tão seguro, mas tão seguro! Tanto que ainda sigo com essa mesma segurança. Senão não sairia. E ao invés de travellings without movings, heads with wings, and etc, fui me jogar no esgoto, no abismo, no pântano de um subemprego, de uma sub ciudad, megalópole confusa e descompassada. Refez meu passado, minhas lembranças. Os fios de Ariadne tornam-me inversos. Parece que agora busco voltar ao centro do labirinto. Pelo conforto da memória, pela lembrança cálida e candente. Lá se foram os borrões, os espasmos a doença louca que me consumia. Não me lembro de nada, inquieto e inseguro. Paisagem brutal que segue em mim, agora me trazendo segurança, exatamente por ter gastado, consumido tudo. Sabor doce de ilusão. Ai, paisagens doces.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-4749152481754043056?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/4749152481754043056/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=4749152481754043056&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/4749152481754043056'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/4749152481754043056'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2008/05/lampejos.html' title='Lampejos'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-6201108416646214036</id><published>2008-05-12T13:59:00.000-07:00</published><updated>2008-05-12T14:00:17.724-07:00</updated><title type='text'>Amor de Carnaval</title><content type='html'>&lt;pre&gt;Amor porteño (gotan project)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Una inquietante mirada de amor porteño&lt;br /&gt;Cálida y cruel&lt;br /&gt;No, no puedo creer que pasó&lt;br /&gt;Que el misterio sensuel de tu risa canyengue&lt;br /&gt;Se apagó&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brindo por esa ilusión de amor porteño&lt;br /&gt;Loco puñal&lt;br /&gt;Dulce y fatal, la nostalgia&lt;br /&gt;De un tiempo pedazo de&lt;br /&gt;Nosotros dos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Y yo que pensaba que no me importaba&lt;br /&gt;Que una caricia podía borrar el color&lt;br /&gt;De mi ciudad ...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;El código oculto de esa mirada&lt;br /&gt;Es como una señal&lt;br /&gt;Y no puedo zafar&lt;br /&gt;Un deseo sutil que temblando me viene a buscar&lt;/pre&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-6201108416646214036?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/6201108416646214036/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=6201108416646214036&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/6201108416646214036'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/6201108416646214036'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2008/05/amor-de-carnaval.html' title='Amor de Carnaval'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-7984350578107584686</id><published>2008-05-12T13:58:00.000-07:00</published><updated>2008-05-12T13:59:16.961-07:00</updated><title type='text'>febre</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Perdura uma fúria, um desejo intensamente destruidor que corrói minhas entranhas, me faz vestir a capa negra, os caninos se esticarem e sair uivando pela noite. Uivante. Sedento, febril. E da explosão de desencantos, do romper das comportas, do transbordamento delirante, a tentativa anêmica, de trajes rotos, em busca duma gota, concentrada, que refaça a esperança. O desejo de que os fluídos tomem conta novamente de cada artéria, veia, que salve os espaços dantes cheios de tráfego e agora mornos, vagos, remotos para a semeadura do porvir. Falta a vontade de poder. E nada mais.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Foi-se o tempo das grandes colheitas, das terras férteis e irrigadas por gotas gordas d’água que permeavam sonhos apaixonados. Resta, apenas e tão somente, o desejo do resgate daquilo que é atemporal, que pode estar se executando nesse exato momento. Seria incrível ser possível reaver o &lt;i style=""&gt;anima&lt;/i&gt;, o plasma das paixões, magma incandescente e ativo. As energias baixaram, as trocas afrouxaram-se, sobrando apenas as migalhas e trapos doutros carnavais. Se a espera se mantiver dolorosa, talvez seja apenas a confirmação óbvia dessa necessidade de transformação completa.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-7984350578107584686?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/7984350578107584686/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=7984350578107584686&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/7984350578107584686'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/7984350578107584686'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2008/05/febre.html' title='febre'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-4355012787416650116</id><published>2008-05-10T11:07:00.000-07:00</published><updated>2008-05-10T11:08:25.772-07:00</updated><title type='text'>Do após-calipso interno</title><content type='html'>O sol brilhava a pino, sous le soleil exactement, fazendo todas as cores reluzirem intensas, vívidas. Sol tropical, forte, caudaloso. Derretendo corpos, árvores, cidades inteiras. Nada continha a fúria do sol que a tudo destruía. Cachorros quase desmaiados nos cantos das casas, sofrendo até para respirar. Um vento seco soprava e secava o sal que emanava do corpo. Lá se foi o banho, lá se foi o frescor das idéias. O calor castigava, junto com o brilho do sol. E da altitude de Sobradinho, ao longe, no final do horizonte, nuvens densas, carregadas, pesadas e cheias d’água se preparavam para cair num canto qualquer de Brasília. Não me importava. Sequer sentia a possibilidade de chuva naquele instante, não era capaz de pensar nisso enquanto derretia inteiro.  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Fui pro ponto de ônibus, pensando nos trinta reais que tinha na carteira, pensando na hora errada que decidi tomar tal decisão. Podia esperar um começo de mês, podia esperar a melhor ocasião, podia esperar tudo. E assim, novamente, protelaria tudo que consumia a minha mente, meu corpo, meu cotidiano. Já não tinha mais como preparar, como esperar o trem. &lt;i style=""&gt;Assim pensando o tempo passa, e a gente vai ficando pra trás.&lt;/i&gt; Não sabia ao certo onde poderia dar tudo isso, se realmente sairia do lugar. Vidas secas, sol escaldante, o caminho de terra e cascalho no meio do gramado mal-cuidado. Cada passo saía errante, sem saber ao certo. De alguma forma, começava a jogar fora alguns mapas mentais, raios de ação.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Ter saído daquela casa, daquele quarto fedendo a cigarro e a cerveja choca levou-me à saturação visual completa. As cores não cabiam em mim. Todos me ignoraram e ignorei a todos. Um silêncio medonho e uma indiferença carregavam o ar quando da minha presença. Não sabia ao certo o que fazer antes de pôr os pés na rua. Tinha juntado umas mudas de roupa na noite anterior, após um incidente numa festa. Estava tudo amassado dentro da mochila. Preparei o que restava, sobretudo de mim mesmo, mas me esqueci de um bocado de coisas. Phoda-se. Mal conseguia pensar. Estava consumido pelo mundo. E tudo permanecia imóvel, ficado na terra, estagnado. Os aromas pesavam sobre o ambiente, minhas coisas, aquele céu que me testemunhou a vida toda.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;A primeira necessidade era sair do DF. Desceria para a rodoviária do plano piloto e de lá partiria para Valparaíso. Guardei três maços de cigarros na mochila, fechei esta e fui para o ponto esperar a galera amarela. As poucas pessoas no ponto brilhavam radiantes, milhares de cores quentes, a parada amarela, a grama verde reluzindo, o céu de azul infinito, camisas vermelhas, laranjas, fogo intenso. Perdia-me naquilo tudo, parecia-me tudo demais. O transporte se aproximou, singrando o asfalto prateado que se derretia nos pneus como lâmina cortante. O asfalto oscilava, parecia que estourariam bolhas daquela incandescência. Dentro, o piso laminado e luminoso dava dores de cabeça, o cheiro de óleo diesel me consumindo, o barulho ensurdecedor do motor comendo minha audição.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O ônibus rodava lento, tentando escapar da areia movediça, sacolejante, com urros cansados do motor, como animal abatido, resfolegante. Era possível sentir os suspiros de vencido que o ônibus gritava. Como estávamos a uma parada do ponto final, este se encontrava completamente vazio. E já um tanto derrotado. No ponto seguinte, um homem adentra com uma blusa extremamente branca, gelo, e duas pipas quase psicodélicas pelos desenhos e pela explosão de cores. Era-me impossível pensar. Tudo me engolia. A mochila pesadíssima sobre meu colo parecia um peso de papel tentando me manter firme para não sair planando por aí, do vento louco que entrava pelas janelas recém-abertas. Sentia meu corpo gotejar, a água se formando na superfície da minha pele, e o vento a secar tudo. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Era uma fábrica de sal. Meus braços também brilhavam, minha carne cozinhava lentamente, no vapor daquele domingo, fritava naquele óleo fétido que borbulhava dentro do ônibus. Já estava minimamente temperado para a ocasião, restava-me uma maçã na boca, talvez. Passamos pela rodoviária de Sobradinho, por mais algumas paradas dentro da cidade, cada vez enchendo mais, mais gente subindo, mais calor se fazendo, o carro tentando se livrar das raízes que se formavam em suas rodas. Finalmente alcançamos a rodovia. Simplesmente a entrada nesta trouxe uma longa rajada de vento que levou consigo todo o calor. Tirando o sol impetuoso, a massa de calor havia desaparecido. E de fora, todo o abandono dominical tomando conta do mundo, favorecido pelas irradiações cruéis.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-4355012787416650116?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/4355012787416650116/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=4355012787416650116&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/4355012787416650116'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/4355012787416650116'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2008/05/do-aps-calipso-interno.html' title='Do após-calipso interno'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-4778571657486628709</id><published>2008-05-10T11:06:00.000-07:00</published><updated>2008-05-10T11:07:34.108-07:00</updated><title type='text'>O Período Diluviano</title><content type='html'>Chuva, chuva, chuva. O caminho até Luziânia foi completamente encharcado e tedioso. Fizemos um longo caminho com pouca visibilidade. A chuva começou e todos, como de costume, fecharam completamente as janelas do ônibus. Uma densa colônia de bactérias devia estar se formando naquele momento, com pessoas tossindo, conversando alto, crianças chorando. Olhava pras pessoas e só sentia hálito quente emanando de seus corpos. Nos sonos, nos peidos, nos risos, no silêncio. Tudo vedado, mal dava para saber o que acontecia do lado de fora. Passava regularmente as costas da mão no vidro, mas rapidamente perdia a pouca visibilidade conseguida. As pessoas oscilavam de acordo com a extensão da viagem, que era longa. Muitos entraram e caíram rapidamente no sono. Poucos quilômetros depois estavam despertas e fazendo algo, seja escutando música, conversando, lendo algo. De tempos em tempos, entravam vendedores/as que perderam tudo, que portam alguma doença grave, que ajudam alguma instituição de caridade, alguém que podia estar roubando mas está lá vendendo aquelas balas, aqueles kits, aqueles adesivos. Parece um longo sistema de caronas e vendas donde tudo conflui perfeitamente para que nunca dois vendedores se encontrem. E enquanto isso, dezenas seguem seu itinerário. No meio do mar de chuva.  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;As águas engoliam as pistas, os pontos de ônibus, as canelas das pessoas. Era um dilúvio de verão, na terra de 14% de umidade relativa do ar na maior parte do ano. As janelas fechadas e completamente embaçadas tornavam impossível saber ao certo o que acontecia do lado de fora. Mas a impressão latente era de que a qualquer momento poderíamos ser tragados pelo mar que se fazia. Estava sentado na altura de uma das rodas e um imenso leque d’água chegava à minha altura. Tudo começara quando largamos o plano piloto. A partir daí, tornou-se impossível saber qual o caminho que o motorista fazia. Qual fosse o trajeto, seguramente muitas mudanças em cima da hora tiveram de ser feitas. Aquele jogo, digamos, “arrojado”, típico de motoristas de ônibus, de retornos em cima da hora, ultrapassagens completamente improváveis e níveis de velocidade impressionantes para um veículo carregado de gentes. O motorista seguia impassível, talvez porque a viagem é longa e ele teria de fazer de qualquer jeito. Então, acaba tocando o phoda-se. Os passageiros tampouco demonstravam algum interesse por aquele dilúvio. Parecia-me que para eles as coisas não soavam tão curiosas. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Casebres, barracos, cidadelas afundadas n’água, tudo contrastando com o clima da minha partida. Quanto mais nos afastávamos do plano piloto, mais intensa a chuva, mais pobre as casas, maior a penúria para as pessoas se locomoverem. Os canteiros centrais entre as duas vias das rodovias vomitavam para o asfalto uma água densa e barrenta, bem como o fazia também as laterais da pista. Enquanto isso esperava, como as dezenas que se empurravam nas paradas de ônibus de tamanho ínfimo. No entanto, não estava ensopado até os ossos, tinha comigo apenas o tédio da viagem. Dormi. Várias vezes vieram pequenos sonhos que se fundiram com o ambiente do ônibus. Acordava de estalo, sem fazer idéia de onde estava. Partia sem saber ao certo como faria para sair dali. Essa era a única certeza, a de sair dali. Aquela chuva esforçava-se para carregar de fertilidade aquela terra bravia e maldita. Esforço digno. Mas não mais para mim. Precisava cair fora. E urgente. A cidade me absorvia como terra árida sorvendo água. Meu tempo se esgotava, para mim mesmo.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-4778571657486628709?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/4778571657486628709/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=4778571657486628709&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/4778571657486628709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/4778571657486628709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2008/05/o-perodo-diluviano.html' title='O Período Diluviano'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-2847071316538640245</id><published>2008-05-10T10:12:00.000-07:00</published><updated>2008-05-10T10:14:21.671-07:00</updated><title type='text'>Da varanda</title><content type='html'>Por cortesia, preciso fumar na varanda do apartamento, de aproximadamente 1m x 0,5m. Não há muito que se fazer. Mesmo porque mal dá para se movimentar. Na sacada, tem um pequeno varal no canto, restando apenas metade do espaço inicial. No começo, sentava-me desconfortavelmente apoiado no vidro que faz fronteira com a sala do apartamento, mas é assaz desafiador para quem perdeu o pouco que tinha de elasticidade nos últimos anos. Mesmo assim, demorei em traçar outra forma de fumar. Enquanto fazia um pequeno contorcionismo, observava os apartamentos de dois prédios que ficam à minha frente e seus jogos sincrônicos de luzes emanadas das televisões, quase todas no mesmo canal – Globo, creio eu. As noites são bem frescas por estas bandas, sobretudo na varanda. Nos últimos dias, chuvas leves encerraram meu expediente com aquele aroma de cimento molhado subindo até o apartamento.  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;De dia, é possível observar algum gato pingado jogando bola numa das quadras do condomínio ou escutar a gritaria das crianças no colégio, também dentro do condomínio e em frente à sacada. Ficar observando atrás de grades é algo deveras angustiante, sobretudo por me ver, em grande medida, ilhado. Aqui, no Recreio/Barra, são muito quilômetros longe de civilização. Viver aqui deve ser algo realmente penoso para a mente e o espírito, pois tudo é forçosamente elitista, apartado do mundo. Um misto de estátua da liberdade com arquitetura e urbanismo Miami-Plano-Piloto-Sudoeste-Goiânia. Não paro de pensar em Umberto Eco, na irrealidade do cotidiano. Avenidas largas, com aspecto de rodovia, que me lembram cidades americanas, um Road-movie estilo Paris-Texas ou Little Miss Sunshine. E por todos os cantos ruas gringas, shoppings por todos os lados, prédios que basta mirá-los para saber que cada apartamento custa milhões de reais. Talvez tenha me caído perfeito isso aqui, como uma transição. Ainda me sinto em Brasília quando estou nessa região.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O impacto da cidade não me vem tão grande, porque sinto-me em Metrópolis do Fritz Lang, faltando mesmo só aquela trilha sonora chatíssima. Chegar de noite, de ônibus, aqui, é ver os milhares de pobres que saem de dentro dos shoppings, das casas, dos uniformes, dos baldes e vassouras, dos sorrisos mecânicos, para alguma favela da região. Muita Brasília na veia. O tempo corre e já sei que em breve estarei fora daqui, só não sei para onde vou ainda. E de lotações com funk carioca na veia, de ônibus de direção arrojadíssima e caminhos sinuosos, vou pingando nos lugares, vou sentindo a cidade, vou sendo compreendido por ela e vice-versa. Eu e o tempo acertaremos nossos ponteiros. A grana vai se esvaindo, agonizante, escapando dos dedos, nas passagens, nos metrôs, nos sanduíches vagabundos de dois reais. E em toda parte vejo gente, mulheres, homens, mulheres deliciosas, velhos fumantes inveterados.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Os velhos e velhas fumantes são fascinantes. Pela forma como seguram seus cigarros, como andam, como os acende, sua senilidade exposta no hábito de fumar. Nos pontos de ônibus, nos bares imundos, nas calçadas já gastas por milhões de pés e sonhos investidos nessa cidade. Incrível como as pessoas andam. E mesmo assim parece haver um pavor de andanças muito longas. Pedir informação sobre algum lugar um pouco mais distante para ser feito a pé é o suficiente para te forçarem a pegar um ônibus. É tudo muito longe, supostamente. Mal conhecem a nouvelle capital. Mal sabem a necessidade de perseverar na economia. Mas não há discussão.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Decidi por levar uma cadeira para a varanda e testar sua ergonomia dentro de tão pouco espaço. Finalmente fumei decentemente, os pensamentos saíram melhores.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-2847071316538640245?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/2847071316538640245/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=2847071316538640245&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/2847071316538640245'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/2847071316538640245'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2008/05/da-varanda.html' title='Da varanda'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-6803088976027968913</id><published>2008-05-10T09:45:00.000-07:00</published><updated>2008-05-10T09:51:19.863-07:00</updated><title type='text'>Da colônia penal</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Era verossímil abandonar aquele lugar, onde não voltaria a dormir ali e que, seguramente, nunca mais veria aqueles zeladores, aqueles carros, aqueles prédios. Novamente, tudo ficava para trás. Menos mal. Dado o andar da carruagem, aquela era a menor e menos penosa das despedidas, seguramente. Acendeu um cigarro e caminhou com a mochila nas costas, pensando em Teresa se despedindo dele com uma indiferença dominical, nada parecia ter a proporção que justificara sua estada inicial por aquelas bandas. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Toda a movimentação ocorrida nos segundos que se desenrolaram após seu anúncio de que partiria, passava a impressão de que ele iria fazer uma ligação no orelhão do outro lado da rua e que não levaria a chave. Ao fim e ao cabo, era como se ele, de fato, estivesse saindo para fazer uma ligação no orelhão ou comprar cigarros e nunca mais voltaria. Simplesmente nada no mundo parecia sentir aquele desencadear de ações, essa seria, afinal, a diferença para a forma do partir, era acordado que não haveria qualquer espécie de retorno.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;E pensar que no exato dia em que partira, duas semanas antes dali, recebera uma ligação à meia-noite, vento seco e frio soprando no posto de gasolina deserto, apenas a voz apaixonada dela. Saudades, desejo libidinoso, carícias sopradas ao pé do ouvido, via celular, mais de mil quilômetros de distância e um arrepio intenso percorrendo o corpo de Lobão. O desejo era muito mais pela distância que por qualquer outra coisa. O distanciamento inevitável e óbvio era o clímax da relação. A possibilidade de visitar e revisitar a memória, costurar das formas mais variadas possíveis a lembrança tornava para cada um suas solidões menos penosas e amenizavam quaisquer de seus problemas cotidianos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Lobão tinha plena certeza do risco que corria de encontrar a pessoa, digamos, real, que povoava seus sonhos. O choque de encontrar não ele mesmo e seus desvarios elaborados na distância e na fertilidade das idéias era-lhe inevitável e causava-lhe muito temor. Desconhecia Teresa. Não fazia a menor idéia de quem ela era de fato. Tinha a comodidade anterior de que, em breve, receberia sua visita em casa. Agora, ela, situada coincidentemente no meio de seu destino, de sua viagem, era uma grande incógnita, para não dizer terror.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Cada vez que pensava nela, perdurava o horror da certeza de estar sonhando com coisas que ele optou por lembrar, inventar e criar como sendo ela. Na fuga do brilho eterno de uma mente sem lembranças, não sabia como interpretá-la e como encontrá-la. Dentro do caminhão, quando pensava nela, cheio de desejo e tesão, tentava propor para si mesmo que talvez o melhor fosse não encontrá-la e, simplesmente, mantê-la um sonho cálido e delicioso em sua memória. Evitaria o transtorno do encontro concreto de mundos, gostos e caprichos com os quais jamais fora posto a conviver. Mas a paixão era maior. Muito maior.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Acabou por inseri-la no objetivo de sua partida, quando decidiu arriscar-se a evitar mais uma carona, aguardar mais quatro, cinco dias, em São Paulo, nas histórias que inventava para os caminhoneiros com o desejo de deixar para trás o Lobão que fora e a história que tivera. Agora, não tinha estudo, mal tinha família, não tinha dinheiro, perdera tudo e estava grávido de um sonho. Esse parto não aconteceria na estrada, tinha lugar marcado e não importava o dia e a hora, o tempo que fosse demorar. Agora, era tudo uma nova história sendo escrita. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Teresa passara os três últimos dias fora, o que vinha impedindo a partida de Lobão e tornando, para este, mais forçosa a sua saída. Teresa não suportava mais a presença dele em sua casa. Tinha dias que sequer trocava palavras após as investidas de Lobão por alguma conversa. Ela acordava, fumava um baseado em silêncio enquanto preparava seu desjejum, saía para sua aula, retornava no final da tarde, acendia outro baseado que religiosamente fumava na sala fingindo alguma naturalidade e indiferença em frente ao computador ou à televisão, comia alguma coisa, entrava para o quarto e dormia.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Lobão costumava preparar alguma refeição para a noite, que ela fazia questão de tocar somente no dia seguinte, e o resto do dia ou passava procurando emprego ou sentado na sala, como um típico desempregado, aguardando alguma ligação salvadora para uma entrevista nalgum lugar. Desde que Teresa passou a evitá-lo, tomou o colchão que estava na sala como seu e restringia seu raio de ação dentro da casa para o âmbito compreendido entre as minúsculas sala, cozinha e banheiro.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Sentia uma solidão intensa e profunda quando não descia para o centro da cidade, encurralado num prédio gradeado, dentro de um condomínio cercado, num bairro visivelmente elitizado, distante de tudo e temeroso do mundo real. Tomava uns dez banhos de sol diários, quando precisava se deslocar até a sacada de 1,0X0,50m para fumar. Fechava a porta de vidro tapada com uma colcha que dava para dentro do apartamento, agachava-se ou buscava de dentro uma cadeira de plástico, trazia para perto de si uma latinha de cerveja que improvisara como cinzeiro e fumava em completo silêncio.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Ali, restava observar a vista restrita e abafada por outro prédio rigorosamente idêntico ao que morava, posicionado de forma a bloquear a paisagem. Sobrava-lhe observar este ou os fundos de um colégio público rigorosamente cuidado e limpo para os filhos dos funcionários que trabalham nas redondezas. Ficava como que expulso daquele mundo onde estava, flutuando numa bolha de concreto e grades de alumínio, dividindo o pequeno espaço com um secador de roupas e alheio daquilo, como que numa bolha anti-nuclear ou qualquer coisa do tipo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Sempre sorvia o cigarro sendo capaz de escutar este queimar em alto e bom som, mas nunca ouvia ruído algum de Teresa. Sentia-se um imenso estorvo para ela, mas era-lhe impossível, naquela altura do campeonato, esnobar aquela permissividade incomodada de Teresa para procurar outro canto onde esperar algum emprego aparecer. Seu dinheiro, já muito parco, minguava aceleradamente. Os movimentos eram cada vez mais cuidadosos e manter-se imóvel era a decisão mais sábia para prolongar a chance que ele dava à sorte.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Desejava a languidez e a serenidade de uma estátua ou de um daqueles loucos que param todo o restante de suas vidas e meditam até a morte apenas em uma posição. Desejava mais a estátua não como presença imóvel e sem desejos, mas para evitar o embaraço e desagrado que sua presença causava. Queria, também, a brecha de poder se movimentar nalgum momento, mesmo que apenas o diafragma. O cigarro, os passos, os bocejos, se tornavam tão pesados e escandalosos que para ele era insuportável prosseguir naquela casa enquanto existência e convivência.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-6803088976027968913?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/6803088976027968913/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=6803088976027968913&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/6803088976027968913'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/6803088976027968913'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2008/05/da-colnia-penal.html' title='Da colônia penal'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-4577976118064897786</id><published>2008-04-09T13:30:00.000-07:00</published><updated>2008-04-09T13:36:35.595-07:00</updated><title type='text'>A estrada (as primeiras horas de caminhão)</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_fGm5L6T3z_Q/R_0obPSvLkI/AAAAAAAAAAk/9QHgWyrmGxw/s1600-h/17-03-08_1642.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_fGm5L6T3z_Q/R_0obPSvLkI/AAAAAAAAAAk/9QHgWyrmGxw/s320/17-03-08_1642.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5187346794227379778" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 153, 0);font-size:85%;" &gt;Subi no caminhão de Valter, que me ensinou uma gambiarra pra poder usar o cinto de segurança. Ele estava sem o prendedor do cinto e, portanto, eu tinha de me sentar sobre a ponta que passa pela cintura e passar a ponta que cruza o tórax por trás de mim e colocá-la na posição correta. Esse foi nosso assunto inicial. Poucas palavras. Ele tinha acabado de comprar uma mídia de mp3 com os 25 volumes da discografia completa do Milionário e José Rico e estava ansioso para tocar. Colocou altíssimo e me empolguei com a energia do camarada. Saímos do posto e ele disse que precisava passar num lugar antes de partir, mas que era coisa rápida.&lt;/span&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 153, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Atravessamos a rodovia, entramos numa estrada de terra bem estreita e ladeada de barracos. O caminhão era gigantesco para a trilha que fazíamos e chacoalhava intensamente na estrada íngreme. Valter não hesitava e dirigia com muito ‘arrojo’, pra não dizer inconseqüência. Muitas crianças brincavam ao redor e bastava colocar a cabeça para fora da janela que era possível ver a enorme nuvem de poeira que ele largava para trás. Depois de costurar muitos caminhos estreitos e inesperados, parou vizinho a um barraco em construção e buzinou. Um senhor veio e conversou brevemente com ele sobre algum retorno com cargas, papo que não me incluía e que evitei escutar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 153, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Valter estava elétrico. Era seu ex-sogro, que viera pra cá morar com a filha. Passou-me imediatamente a contar-me seu histórico amoroso, enquanto dirigia loucamente pelas estradas de terra. Quando alcançou a rodovia, um lugar onde ele podia arroxar o buriti sem medos, retomou uma direção sóbria e contínua, não passando nunca dos 80 km/h. A partir daí, as três ou quatro horas seguintes foram muito Milionário e José Rico e a desastrosa vida amorosa de Valter. Ambas as coisas agora se conectavam profundamente. Aquele som meio caipira, de corno apaixonado, abandonado, a fodelança completa de quem fica para trás enquanto as pessoas vão arriscar outros quinhões.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 153, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;A estrada seguia infinita. Fitava constantemente a quantidade de plantações, os sistemas de irrigação, as colheitadeiras estacionadas, os caminhões lentíssimos, as filas indianas. Não me era necessário olhar Valter para a conversa fluir, as coisas que ele me falava, falaria mesmo sozinho. Precisava urgentemente desabafar. A ex-esposa decidiu tentar vida nova em Brasília, cagando na cabeça e nos sentimentos de Valter. Ela lhe comunicou, ele tentou conversar, mas ela estava decidida e, portanto, deixou-a partir. Essa foi a versão informada por ele, completamente diversa do desespero indisfarçável que ele vivia do abandono da última companheira. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 153, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Valter é nitidamente um camarada passional e espalhafatoso. O colega de serviço que lhe contou minha saga me mostrou para ele. Mesmo assim, fez questão de gritar no pátio das transportadoras que estava partindo para São Paulo e que se alguém precisasse de carona precisava se apresentar imediatamente. No almoço, eram apenas gracejos para as garçonetes. Chamava-as de meu amor, perguntava para uma delas, que tem um filho pequeno, como estava o ‘Valtinho’, dizia que ia tirá-las de lá e dar-lhes uma vida melhor. Tudo isso falado aos berros, pouco se importando com o fato de uma das meninas estar casada com um dos caminhoneiros que estava no pátio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 153, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Comia avidamente, não parava de falar e de sinalizar para os conhecidos. Quando terminou de almoçar, conversou longamente com o dono da lanchonete sobre a comida, o tempero desta e a carne de panela estar horrenda. Ria alto e em tudo parecia investir um sentimento exageradamente agitado em tudo. Saiu pelo pátio conversando com todos, fazendo piadas e rindo pelas orelhas. Magro, um pouco mais queimado de sol que eu, cheio de pequenas verrugas nas maçãs do rosto, essas verruguinhas que pendem como se fosse um excesso de pele, tipo as que o Pixinguinha tinha na cara. Tenho umas dessas na cara, também, que minha mãe me dizia que, na terra dela, era sinal de ‘sangue de preto’. Os incríveis laboratórios de DNA do interior das Minas Gerais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 153, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;A conversa tinha um vetor muito bem definido. Valter falava de seus fracassos amorosos e eu escutava completamente calado. No início, tentei abrir a boca, mas ele estava cagando para o que eu pensava. Logo passei apenas a escutar e ele ficou muitíssimo satisfeito, falando pelos cotovelos. Suas histórias, repetidas à exaustão, e a estrada, também repetida demais em sua paisagem depois de algum tempo, não tinham lá muita emoção e logo estava com um sono incontrolável. O caminhão rodava lento e austero, mesmo completamente vazio e com a urgência de Valter chegar à São Paulo. Uma hora, virei a cara pro lado da estrada e dormi pesadamente, sem sonho, sem nada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-4577976118064897786?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/4577976118064897786/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=4577976118064897786&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/4577976118064897786'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/4577976118064897786'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2008/04/estrada-as-primeiras-horas-de-caminho.html' title='A estrada (as primeiras horas de caminhão)'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_fGm5L6T3z_Q/R_0obPSvLkI/AAAAAAAAAAk/9QHgWyrmGxw/s72-c/17-03-08_1642.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-6176899801776342125</id><published>2008-03-02T15:38:00.000-08:00</published><updated>2008-04-09T11:51:09.637-07:00</updated><title type='text'>Rio Ah! Um</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Meu time acabava de demonstrar sinais claros de que a segunda divisão estava cada vez mais próxima, enquanto eu tomava uma cerveja, sozinho, diga-se de passagem, na companhia de Judy. Não conseguia decifrar exatamente o que ela queria, atendendo minha ligação, mostrando-se solícita em me encontrar recém-chegado ao Rio de Janeiro. Ela estava linda, deslumbrante. O Corinthians, jogando igual um time de segunda divisão. Em poucas horas saberia do meu desenrolar com ela. Em poucos dias saberia o desfecho tenebroso de meu time.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Tomei duas cervejas rapidamente, o que me deixou levemente&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; bêbado e com a perspectiva de ter uma caganeira, porque a cerveja sempre ficava quente no meio do caminho, sem camisinha, semi-gelada, tomada sozinha. A mina estava inquieta, olhava nos olhos, fugia dos meus depois d’algum tempo, deixava o colo a mostra, ria de orelha a orelha, facilitava o assunto, mas eu nunca sabia se era da mesma perspectiva que compartilhávamos. Sempre alguma reticência após meu esforço descomunal em tentar manter vigor no assunto, interesse desmedido por tudo que propúnhamos. Qualquer a&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;ssunto eu me esforçava por achar interessante e provocava tempestades de palavras, era capaz da minha mandíbula cair.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Judy tem muito daquele esquerdismo patético de centro acadêmico, um encantamento juvenil pela palavra e pela heráldica esquerdista na forma mais opaca possível, que torna movimento punk, anarquia, maoísmo, leninismo, e todo o resto de teorias e vivências de esquerda algo sem brilho, são apenas e sempre os mesmos símbolos, as mesmas coisas, as estátuas de Lênin, as bandeiras vermelhas, as foices, martelos, livros de capa vermelha, tudo farinha do mesmo saco. E no meio disso uma dificuldade crônica de inserir qualquer outra perspectiva que fuja aos manuais do que consideram de esquerda... Sei lá, phoda-se tudo isso. Mas creio que pra traduzir esse esquema pitoresco-carioca, é possível utilizar-se do estudante de DCE caricaturizado nalguma novela global.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;E meu Corinthians continuava lá, contra a cruz-de-malta, agonizando, num Pacaembu lotado, e&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;sperançoso d’alguma mudança. A coisa não estava boa. Parecia um bando de perna-de-pau, eu poderia ser titular num time daqueles. Olhava pouco para a televisão, mas bastava um relance para ver o quão desanimador estava a situação. Mas dentro disso, pouco me importava... Estava num bar cheio de cocotas, a mina toda gostosinha na minha mesa, sorrisinho dela de orelha-a-orelha, tinha alguma esperança, mesmo com a mina num papo brabo de abstemia. Minha estratégia era beber por mim e por ela, confluindo os desejos de dois bebuns pra poder emplacar uma phoda massa como da outra vez.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Enquanto bebia, via o jogo, falava pelos cotovelos, falava pelos pulsos que quase caíam da minha mão, admirava a gostozinha na minha frente, as delícias que circulavam ao meu redor, sonhava com uma nova trepada com ela, meses depois, revigorado, sedento, e tinha de mirar no celular, na expectativa da chegada de Biaphra, que vinha de Brasília pra se encontrar comigo. Supostamente era pra ele ter chegado, mas enquanto nada disso acontecia, esperava por ele, esperava para mandar uma desculpa bem dada para não recebê-lo na Cinelândia às 22h e pouco, orientá-lo a chegar no bar onde estava, o fim do arco-íris – da Lapa. Ficava cada vez mais bêbado, quando pedi a caipiroska e tomei-a quase que de um trago, puro açúcar, puro fiapo de limão, pura vodka barata e pedi outra. E pedi mais outra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Judy recebeu um telefonema, falou demoradamente, um fiapo de renovação tomou conta de si mesma. A irmã fedida dela que o pobre Tibério encarou para me ajudar da vez anterior que nos conhecemos, que teve de dar garras homéricos e gastar sua melhor lábia rebelde para encantá-la, estava a chegar com seu namoradinho. Judy quase saltitava de emoção, seus olhinhos brilhavam. Bastou que ela desligasse o telefone para que duas amigas dela aparecessem e, sem a menor cerimônia, sentassem conosco. O Corinthians estava lá, na televisão, apanhando. Sentaram-se as duas, com um terceiro tipo, e se regozijaram do clube cruz-maltino&lt;/span&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_fGm5L6T3z_Q/R8s8eqlk8tI/AAAAAAAAAAY/5vIq_QAE8dM/s1600-h/01-12-07_0319.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer; width: 221px; height: 165px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_fGm5L6T3z_Q/R8s8eqlk8tI/AAAAAAAAAAY/5vIq_QAE8dM/s320/01-12-07_0319.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5173295094490788562" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; estar a vencer. Fui longamente zoado. Fui longamente sorriso amarelo. Fui longamente desesperançado de uma phoda decente, fui longamente preparado para escutar ondas tsunâmicas de barbaridades.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Sinto-me completamente desmotivado, repetindo os cenários dantes encantadores, agora mera tentativa de resgate d’algo intenso, parece que tudo míngua. Da ponta de desgosto, tento recuperar algum fio jazzístico, que reencontre a força que esvai de mim no momento, torno a buscar a pulsão mais intensa que vomitava ébrio de mim doutra vez. A cidade de coisas velhas, de histórias loucas, de cartas marcadas, parece não mais me encantar, o filho do modernismo, das linhas retas, dos traços duros, das árvores tortas, do tédio com T, das mãos calejadas para a modernidade. Phoda-se. Biaphra chega, Biaphra escreve, Biaphra traz um fio d’esperança pra novos contornos da noite. Biaphra que do Centro, desce de táxi até o arco-íris errado, para a granja das loucas, para as frangas perdidas, que lhe vistoriam dos pés à cabeça.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Saio correndo, no meio de gentes, postes, carros, roquenrou, samba de playboy, putas, travecos, urbanos, jogo do bicho noturno, solitários, mesa vazia de novidade sem o forasteiro provinciano do interior. Tropeço nas pessoas, nas mágoas, nos risos, nos beijos, nos bêbados, com a face lívida, com o cigarro na mão, sem fôlego, até Biaphra. Abraço, apertado, sem ar, sufocado, alegria, desespero, agitação, loucura. Temos nove horas até a prova, temos cervejas gelando para nós, temos todos os bêbados, todas as xoxotas, todas as putas, todos os sorrisos para nós. Suas bolsas, suas roupas, seus dinheiros, nossos caminhos, nossos desencontros de ruas boêmias, de calçadas imundas, de mendigos dormindo no chão, de poças de lama. O riso é descontrolado, a alegria toma conta de mim. Até a zoação sobre o Corinthians me alegra, um fio de familiaridade paira no ar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Entramos numa crescência, infinita, desmedida. Sentamos no pote de ouro do final do arco-íris, falamos desmedidamente. &lt;i style=""&gt;&lt;span style="" lang="EN-US"&gt;I'm a street walking cheetah with a heart full of napalm&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="" lang="EN-US"&gt;. &lt;/span&gt;As cervejas vertem aos borbotões sobre os copos, a fiel grita desesperada na televisão, a desgraça e a alegria suprema encontram-se fugidias na mesa do bar. A amiguinha de Judy, da pele mais alva de fidelidade seletiva apenas contra toscos, podres e fodidos, desmancha-se em sorrisos e interesses sobre Biaphra, mas este sequer percebe. Judy quer me apresentar de qualquer maneira para o namorado da irmã, militante d’alguma merda, ‘amigo’ de alguém importante do movimento que, infelizmente, ele troca o nome pelo de alguma ministra. Mas a revolução carioca, a revolução rede globo, não tem problemas com esses erros, as pessoas chegam a ser parecidas em sua perspectiva revolucionária.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Passo a fazer o teste da militância, o American Idol da esquerda, donde sou testado se conheço da realidade brasileira, se conheço todos os movimentos sociais que existem no país, se estou a par de tudo o que acontece no mundo e na ideologia de esquerda, enquanto a fedida da namorada do cara e irmã de Judy fica lá, com seus olhinhos brilhando, apaixonada, vendo seu Prestes fazendo a revolução na mesa de bar, as barbaridades mais revolucionárias do mundo, estamos em 68, quase que num misto de guerrilha na selva e de intelectualidade francesa discutindo eufórica, na Champs-Elysées, as primaveras, os tanques. Massacre intelectual. E o cara lá, com a barba ao redor da boca suja de espuma branca e fedorenta de cerveja choca, tentando me massacrar com os olhos, mirando fixo, querendo me testar, querendo notoriedade, querendo ser comentado no escritório do movimento de Brasília. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Estica um cartão, da ponta dos dedos amarelados de fumar trevo como se estivesse na selva boliviana. Seus olhos brilham, bem como todo o restante da mesa, da parte carioca, que jura fazer a revolução sentada em bares elitistas no revitalizado reduto boêmio da cidade. Da mão esticada, dirige-se até a garrafa de cerveja recém-chegada e verte metade desta dentro de sua latinha já imunda, amassada, choca. A heráldica esquerdista, o arquétipo do militante, desgrenhado, desregrado, barbudo, sujo. Sua cocota quer atenção, eu estou cagando pra ele, quero a atenção de Judy, que trava um papo qualquer com Biaphra. Largo os dois em suas carícias ‘rebeldes’ e torno a exalar sexo, sêmen, língua, saliva, mordida. Mas Judy precisa contar, contar que este homem com quem conversei já foi personagem de livro, já foi cabra marcado pra morrer, blábláblá... E lá vamos nós rumo à embriaguez completa. Bebo, bebo, bebo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Fica pra domingo a decisão final, o golpe de misericórdia, a tensão completa para o descenso do meu querido time, que sai sem eu nem perceber da televisão. Só me restou a certeza, incrédula, mas inevitável, de mais uma derrota. De repente, um zilhão de coisas passam despercebidas, fico pesado, os movimentos alterados. &lt;i style=""&gt;O tempo rodou num instante&lt;/i&gt; e agora a boca da madrugada se abre inteira, larga, sedenta, quer me comer inteiro, sem dentes, sem nada, como se eu fosse a cerveja que me pôs nesse momento de embriaguez insana na noite carioca. Biaphra estava lá, sorrisos, gracejos, cansaço, óculos imundos, cagando para a prova do dia seguinte. Propusemos a nós mesmos jogar alto, apostar muito na madrugada, donde tiraríamos alguma bala ou farelo para revigorar na prova de manhã cedo. Fomos. E quem vai, quer, está lá, domina, deseja, é o ponto irradiador dos milhões de vetores que escapam pelo mundo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Judy decide partir, para meu completo e embriagado desgosto. Venceu-me pelo cansaço, deixou-me sem beijo, sem phoda épica, deixou-me com seus amigos que estou a cagar em suas cabeças. Foi-se, cabelos ao vento, bunda maravilhosa dançando para a direção errada, longe de mim. Biaphra rapidamente me repreendeu, buscou recuperar meus princípios mais agressivos e sexuais possíveis; breve, mas incisiva palestra sobre quem realmente sou, ou deveria ser. Levanto com pouca confiança, quase que empurrado por mim mesmo, pelo estigma que costurei pra mim mesmo, e fui atrás de Judy, atropelando os milhões de pessoas que circulavam a Lapa do trecho do bar até sua casa. Dos meus olhos, ela brilha, visível, emana alguma energia sexual das minhas lembranças, de nossos encontros d’outros carnavais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Alcanço com um dedo seu ombro direito, acompanho seu passo pelo lado esquerdo, gracejo, rio, tento convencê-la de me deixar acompanhá-la, sob o argumento mais antiquado (mas não menos convincente), de fazer-lhe companhia, de jogar mais uns instantes de conversa fora, de aproveitar cada instante de minha estadia na ciudad, da possibilidade de sua inebriante presença. E da sinfonia de risos, fragmentos de conversas, buzinas, carros, polícias, pedintes, bêbados, vou com um nervosismo tomando conta de mim, peso enorme sobre os meus ombros, minha cabeça pesa uma tonelada, sinto-me um juvenil. Muita pressão que sai de mim e volta pra mim, que sai de mim e vai pra ela. Péssima a conversa, lembrança entrecortada por pausas ocultas que minha mente optou por inserir para me poupar d’algum vexame. Sou incapaz de lembrar mais da metade de nossa conversa no trajeto de poucos minutos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Restou-me, apenas, de alguma concretude, a lembrança da entrada daquele prédio, daquela recusa da primeira vez de nossos beijos; de sua mão no meu pau, de minha mão em todo seu corpo, no meio da rua, no meio das mesas, no meio dos garçons, no meio das putas e travecos, que ela decidiu recusar meu convite para subir até sua casa, do ódio que senti pelo trabalho que ela tinha me dado naquela primeira noite, da minha completa falta de expectativa que sequer vislumbrou encontros posteriores tão intensos, graves, sexuais, orgasmo, gozo, vinho, coquetel. Pressão. Olhos nos olhos, mais nada para dizer, a pergunta que não quer calar fica selada num beijo de canto de boca, de 75% ou mais de nossas bocas, que não me soam a nada, que não me despertam a nada. Parece que pesquei algo, não sei como explicar, mas faltou, inclusive, o gosto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Lá se foi ela porta adentro, lá me vou eu, arrasado, embriagado, na noite maravilhosa, cheio de patacas para gastar, desgostoso, momentaneamente desencantado, percorrendo as imundas ruas da lapa quando esbarro nas amigas de Judy, no meio da rua, que deveriam estar no bar. As frangas cacarejam encantadas sobre como Judy finalmente acertou, arrumando um cara como eu, que isso era incrível, que tenho tudo a ver com ela e etcaetera e tal.&lt;i style=""&gt; I’m gonna get stoned and run around&lt;/i&gt;. E ajo miúdo, como um bêbado decadente, soluço para as moças que nada aconteceu. Quero ir embora dali imediatamente. Sou posto contra a parede. &lt;i style=""&gt;Como assim vocês não têm nada?? Você não a beijou?&lt;/i&gt; E tudo vira um grande interrogatório, um desencadear de indignação exageradamente disparada sobre mim. Convido-as a retornarem ao bar, preciso ir, não quero deixar Biaphra sozinho, preciso me livrar delas, de Judy, da repentina pressão. Saio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Atravesso as calçadas apertadas, uma opressão embriagada, preciso esquecer imediatamente disso tudo, voltar minha mente para a suntuosidade da cidade-monstro, deixar-me ser lido por ela, ser vivido por ela, por suas pulsações e inusitabilidades. Parecia não escutar nada fora de mim, não sentia nada externo. Da porta do bar, de primeira, não localizo Biaphra, que num instante me chama de outra mesa, donde está sentado com dois caras levemente embriagados. Sento-me com eles, que se apresentam, arquitetos, um foi professor do outro na faculdade e agora trabalham juntos, enlouquecem juntos. O coroa é Carlos, que pelo alto grau de loucura e disponibilidade para conversar e dar-nos a sensação de familiaridade, apelido de Carlão imediatamente. O outro é Ávalos, jovem, calado, observador. Não imaginava isso, confesso que, de início, tive uma sensação de desapontamento de pararmos numa mesa com dois caras bebuns.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify; color: rgb(0, 102, 0);font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;No entanto, aqui começa a virada da noite, o mergulho. Sobretudo porque com Biaphra ao meu lado sinto que minha energia cresce, flui solta, despejo meu encantamento em relação ao mundo com força, rio caudaloso, e meus medos que deveriam se duplicar com os medos dos outros desaparecem e acredito tornar-me fortaleza para estes também. Não sentia medo das ruas, das praças vazias, das pessoas, dos desconhecidos, da madrugada a pé, de nada. É direção embriagada, em alta velocidade, costurando carros e furando sinais perigosos. Não era apenas o álcool, não era apenas a vontade de querer, as coisas se sobrepunham, mal dava tempo de pensar. Carlão está completamente embriagado, pudim de cachaça, calças gastas, rotas, roupa imunda, querendo impressões nossas sobre Brasília, sobre o concreto aparente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-6176899801776342125?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/6176899801776342125/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=6176899801776342125&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/6176899801776342125'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/6176899801776342125'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2008/03/rio-ah-um.html' title='Rio Ah! Um'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_fGm5L6T3z_Q/R8s8eqlk8tI/AAAAAAAAAAY/5vIq_QAE8dM/s72-c/01-12-07_0319.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-1921212200952201121</id><published>2008-02-24T08:05:00.000-08:00</published><updated>2008-02-24T08:08:48.387-08:00</updated><title type='text'>No balanço</title><content type='html'>&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 153, 0);font-size:85%;" &gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms;"&gt;Carlão, sem grana, decidiu aceitar o bico mixuruca de cuidar da exposição meia-boca de Eros. Em casa, de bobeira, recebeu uma ligação de Martinha Maconha, namorada de Eros que conhecia Carlão por meio de sua prima Valéria, louca das idéias e que trabalhava junto dela num escritório de negócios obscuros, cheios de rendas, cortinas de chitão, bebidas e gringos que não paravam de vir e voltar do Brasil, sempre com muitas notas verdes para gastar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;-Carlos?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;-Oi.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;-Então. Martinha, lembra de mim?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;-Martinha?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;-Isso, casa da Valéria, “Não façamos disso um drama”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;“Não façamos disso um drama, eu tenho uma revelação a fazer”, Carlão berrou com pouca confiança no momento exato de inspiração imbecilóide enquanto Valéria se enlouquecia com Eros ao averiguar que no celular dele tinha a seguinte inscrição enviada para uma mulher qualquer: “Quero te chupar inteirinha agora”. Eros, mais cara de galinha, impossível, com os braços cruzados e uma falsa expressão de serenidade, dizia para Martinha que ela podia ir embora naquela hora mesmo se acreditava que aquela mensagem realmente fora enviada por ele; Contorno mais inesperado e imbecil possível fora a brecha para Carlão entrar na história em defesa do filho-da-puta, de graça, e se intrometer na conversa em favor do picareta, toda ocasião pode valer a tentativa mesmo que gratuitamente, “só pra exercitar”, como diria o poeta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Nunca vira ambos em sua vida e só aparecera em casa de Valéria porque beberia uns tragos de graça, sem esperança, sem ter o que fazer. E quando vira a cara chapada de Martinha, sabia que ela apenas queria ser enganada, tem gente que gosta de escutar versões imbecis sobre o mundo e aceitá-las como plausíveis, o tipo idiota de existência terrena que quer apenas escutar alguma resposta sobre as coisas. Daquelas que se você estiver tomando café expresso no copo americano e disser que toma uma caracu ela acredita, e ainda corrobora com a versão estúpida dizendo que a fumaça do copo é do tanto que a cerveja está gelada e que a espuminha marrom na parede do copo é o resíduo da bebida. Mas, claro, ninguém toma expresso no copo americano, apenas em xicrinhas de porcelana chinesa compradas no contrabando. Teoria da conspiração, você anda pensando em muita merda.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Carlão sentira amor por aquela reação tão corajosa e estúpida, sobretudo por ser feita num contexto em que todos conhecem o camarada, bem como sua postura sobre as coisas. Arriscar-se dessa forma, mesmo que fazendo papel de imbecil, mas com ninguém tendo a pertinácia de questioná-lo, é muito ousada, é a prova cabal do medo coletivo de romper com as estruturas gregárias de pensamento e, por isso mesmo, usar-se delas e atacar a todos, indigna as pessoas e ao mesmo tempo não tem contra-resposta alguma porque as mesmas borram as calças quando alguém cutuca a cordinha de náilon esticada em palitos de sorvete construídas para mantermos relacionamentos “saudáveis” para uns com os outros.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;As caixas de som berravam no vácuo do silêncio feito na sala com a reação de Martinha. Ninguém sabia como manter a estrutura das coisas, queriam apenas persistir no fato de que ele era um galinha fela da puta e que a mina o adorava e, por isso mesmo, o melhor era tudo permanecer. Carlão achara aquilo tudo lindo, sobretudo pela pomposidade com a qual Eros mantinha aquilo aparentemente há eras. Levantou-se sem hesitar, meio que sem saber o que falar e iniciou uma longa palestra, justificada pela incrível cagada histórica dele ter manuseado o celular do puto minutos antes, telefonezinho cheio de aparatos modernosos e inúteis que faziam o aparelho custar milhares de reais, como toques sensíveis no display, cumprimentos em viva-voz por oito idiomas com vozes e sonoridades que seriam típicas de cada região onde se falam essas línguas estúpidas, elaboração de memorandos com cabeçalho adequado para inserção do órgão ou empresa que assina tal documento e outros maneirismos incrivelmente fascinantes por tamanha futilidade e capacidade de obsolescência das coisas. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Para se ter uma idéia da exclusividade de ter um aparelho desses, é preciso enviar uma carta para a Índia contendo uma resenha de algum livro de Samuel Beckett, uma resposta convincente sobre quais as possibilidades reais de transubstanciação da matéria e os porquês poéticos (que fique claro, nada de linguagem médica) de Mussum ter morrido com o coração inchado se o camarada era um grande babaca fora de seus esquetes sensacionalmente brandos dentro de tamanho preconceito racial protagonizado por um indivíduo que poderia se munir da presença oprimida para fortalecer uma luta contra preconceitos de classe, cor e local de nascimento. &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;Eros era um iluminado e este nem era seu nome real, apenas a resposta da carta que sugeria que ele comprasse o modelo RX-4052 e adotasse um nome menos imbecil que Roberval, que poderia queimar o filme da empresa por ter um cliente com nome tão imbecil e que o faria pegar mais mulheres. Deu certo. Ao contar da carta pra Índia (fora de contexto, que fique claro), numa mesa de bar com cerveja a R$4,50, Martinha, uma admiradora do espiritualismo e decência indianos, apaixonou-se profundamente pelo homem de nome tão charmoso e exótico.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Carlão advogou em nome de alma tão bondosa que permitia que qualquer boçal manuseasse seu celular iluminado correndo riscos de ações grosseiras como essa, assumiu sua &lt;i style=""&gt;mea culpa, mea máxima culpa &lt;/i&gt;e sofreu as represálias necessárias por parte de todos ao dizer que estava &lt;i style=""&gt;solto, solteiro, do Rio de Janeiro &lt;/i&gt;e que queria comer uma mina gostosa e que achara o nome da doida um nome de mulher gostosa. Se perguntassem a ele qual era o nome da &lt;i style=""&gt;doida, &lt;/i&gt;ele não saberia responder. Mas era essa a resposta que todos precisavam para evitar as trabalhosas represálias ao camarada que traria problemas maiores se ficasse longe de Martinha, já que esta encheria o penico dos outros com merdas infindáveis, lamentando-se de toda a ingratidão dele, a burrice dela, mas que continuaria a trepar com o camarada e choraria mais ainda nos ouvidos alheios.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Foi com alívio que todos censuraram a postura infame e infantil de Carlão, nunca mais convidando este maníaco para qualquer evento regado a cocaína, depois maconha, depois mais cocaína para recuperar o efeito desperdiçado pela erva, e mais maconha para recuperar o efeito desperdiçado pelo pó, etc, etc. Carlão caiu no ostracismo por essa galera, o que, apesar de não ter tido qualquer sensação aparente por parte dele, era uma tranqüilidade homérica por privá-lo de conviver com gente tão preocupada em manter uma falsa coesão de galera. Tirando o fato de ter levado um cd louquíssimo de Serge Gainsbourg que depois todos, sem exceção, tiraram onda dizendo para algum terceiro que conheciam há muito tempo, ele não propiciara nada para eles e, tirando o pó de primeira, nada mais propiciaram para ele. Parecia uma relação muito justa de dádivas que se encerravam naquele muquifo vagabundo onde Valéria morava. Mas para Eros não fora apenas um cd que ele pôde mixar depois e comer algumas minas dizendo que conhecia a parte mais refinada da música mais underground francesa (beleza, Serge Gainsbourg era exatamente a imagem disso, um adolescente vestido de punk e moicano, citando Cioran e pregando toda a alternatividade que há no mundo).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Eros era um picareta com traços badernistas que decidira certa vez cagar num pote e usar este para pintar uma tela prum concurso de desenho sobre a antiga Israel, ganhara o tal concurso e muito prestígio entre a criteriosa categoria de aristocratas envolvidos com arte na cosmopolita Brasília. Sem ter quem aceitasse cuidar de sua exposição de arte numa galera de caráter duvidoso, lembrara do primo quebrado de Valéria que vivia desempregado e de casa em casa de amigos “temporariamente, até chegar a vez na classificação para o concurso de motorista de metrô”. Pena que cidade alguma no mundo chamaria o ducentésimo quadragésimo oitavo colocado no concurso municipal para motorista de metrô ou qualquer outra coisa do tipo. A não ser que Carlão matasse pelo menos uns 240 concorrentes que se encontravam em melhor colocação que ele, a decisão mais acertada era procurar algo pra fazer da vida.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Sentira empatia por Carlão, mas apenas isso. Como ele não era muito dado com Valéria, que prometera certa vez contar para Martinha que ele estava dando em cima dela e que sabia de outros milhões de podres para serem revelados por ela para a amiga, Eros sentira que seria inadequado manter contatos por essa sem algum intermediário. Pedira para a namorada conseguir o contato do maluco e ela mesma fazer o convite pedindo que Carlão ligasse para ele se tivesse interesse. Na verdade, Eros estava com o telefone cortado há muitos meses, não poderia fazer a ligação, e Martinha podia ligar do emprego dela, sem contar que a impressão que ele tinha é que passaria a sensação de um homem muito ocupado para tratar de assuntos menores constituintes de parte de sua arte. Tratava sempre de passar a impressão que a única parte que lhe cabia desse processo era o suposto ímpeto criativo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Carlão tomava uma garrafa de vinho ligeiramente avinagrado que estava largado numa prateleira de casa, de alguma festa na casa dalgum desconhecido. O chão da casa estava completamente imundo e ele havia pisado numa poça d’água que se acumulara no banheiro com algum entupimento obscuro que alternava um processo de cura mágico com inundações periódicas do piso de casa. Seus pés exerciam uma dupla função peculiar naquele dia, espalhando um barro negro pela casa por conta dos pés imundos e criava uma grossa crosta de poeira, uma areia meio grossa que parecia ficar cravejada na sola dos pés. Acordara com uma bruta ressaca e a última coisa que queria pensar era em como evitar o mar de imundície que ele próprio provocava em casa, enquanto se arrastava com a cabeça mais pesada que o próprio corpo e uma dor lancinante pelas pernas e braços que não fazia idéia de como surgira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify; font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Sempre que bebia demais ao ponto de ter amnésias alcoólicas de longas horas numa noite, era certeza que acordaria cheio de dores no corpo. Tinha o estranho hábito de tropeçar, escorregar e enterrar a cara no chão enquanto caía após esses deslizes. O corpo amanhecia cheio de hematomas que eram descobertos sem ele mesmo saber o que provocou essas manifestações. Costuma beber e adquirir a leveza de um bailarino ou ginasta, que o induz ao erro com muito mais facilidade e muitas vezes o que o salva é a mão de deus ou algo invisível que o segura, quem sabe, pela cabeça, e evita danos maiores para ele e os outros ao redor. Subir em mesas, cordas bambas, dirigir, manusear pérfuro-cortantes, segurar crianças de colo, abrir e fechar portas com leveza e suavidade eram fatos que ele sempre exaltava conseguir fazer bem quando está bêbado e que, curiosamente, de fato, sempre conseguia realizar sem qualquer problema, mesmo que causando alguma comoção de quem estava ao redor e isso provocar-lhe certo vaidosismo pois sabia que não erraria.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-1921212200952201121?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/1921212200952201121/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=1921212200952201121&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/1921212200952201121'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/1921212200952201121'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2008/02/no-balano.html' title='No balanço'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-21101865588130791.post-6337260924783434377</id><published>2008-02-17T19:04:00.000-08:00</published><updated>2008-02-17T19:20:12.610-08:00</updated><title type='text'>Dedos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://bp3.blogger.com/_fGm5L6T3z_Q/R7j5MZbEY1I/AAAAAAAAAAM/quLboivq3hM/s1600-h/Disco+3+802.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://bp3.blogger.com/_fGm5L6T3z_Q/R7j5MZbEY1I/AAAAAAAAAAM/quLboivq3hM/s320/Disco+3+802.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5168154563785810770" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0);font-size:85%;" &gt;Corro os dedos pela barra da toalha de mesa, os mesmo dedos que percorreram seu braço enquanto conversávamos. De movimento imperceptível, como pluma riscada sobre uma superfície muito sensível, fluía de mim um desejo de leve estimulação. Infelizmente, quanto mais olhávamos um para o outro, menos eu me interessava. E tudo o que saía de sua boca destruía pequenas expectativas cotidianas, devaneios pungentes que de antemão sei que são delírios, no fundo. Se corro esses mesmos dedos que percorreram a toalha de mesa agora no copo de conhaque e me distancio de todos, e saio dessa ilha que é essa mesa cheia de gente e olho para cima como se fosse observado de lá do alto e tento escapar daqui, é porque o fascínio já se foi. E novamente o fascínio escapa pelos dedos desgrenhados e desesperados por agarrar cores, cheiros, sabores. E mais uma vez sobra-me o mesmo roteiro perdido e empoeirado que, decorado eras atrás, já não serve para o propósito de perpetuar uma postura, um &lt;i style=""&gt;modus operandi&lt;/i&gt;, uma moral sobre os acontecimentos e detalhes que deles emanam. Deixou de ser lenda, mito, carta de intenções, é horror real, jogo de cartas marcadas. E mais uma vez sentado, e mais uma vez ébrio, e mais uma vez você. Qualquer você, qualquer um, quelque un, formas nocivas de convivência gregária e pré-conservada sem fórmulas escritas, como a receita da titia. Aquela mesma delícia o resto da vida. Que delícia, conhaque, café, cigarro, charuto, pessoas, música, mendigos, garçons, aves, quiromantes, céus, frios, calores, humores. Lindo, lindo demais. Bolos, paçocas, pães-de-queijo, manés-pelados, bombons, biscoitinhos de nata. Delícias secretas que ficam em suspenso, à espera daquele que segure a galinha pelo pescoço, a nau de Colombo que fora encontrada por sereias e monstros míticos e supostamente uma falta de criatividade indígena incapaz de perceber a mesma nau mágica chegando, alertada apenas pelo distinto que pode enxergar além da besta e alienante realidade. Superioridade no sectarismo, talvez mesmo no proselitismo exacerbado em busca de conforto ante à destruição da expectativa de pactos seminais e libidinosos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0); text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0); text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Corro os dedos pelo isqueiro, o abandono já está completo, nem a sensação de estar presente existe entre os convivas, invisibilidade social momentânea, flutuar discreto e cavalgar por outras sutilezas, o desenho do rótulo, a tatuagem nas costas, o nó na gravata, a cor do tênis, o detalhe no brinco, a forma da árvore, passatempos ligeiros de desligar da mente e boicote à desagradável obrigação de conjunção de abismos, de corpos que se espatifam no chão feito balão cheio d’água. Acendo o cigarro, fumaça prateada, densa, enevoada e espessa cobrindo, encobrindo minha displicência fingida do lugar. Dedos nos copos, digitais timidamente dilacerando qualquer álibi, registro inconteste de sua própria culpa e responsabilidade, ficha criminal puxada e analisada. Retorno à mesa, o eterno retorno. Chuvas de palavras, explosões de entonações, silêncio abismal. A fita acabou, a agulha risca o papelão do vinil e todos se silenciam, aguardando a velha boa-nova ou pensando na merda mais adequada para escapar à outra rodada de encare ao vazio que toma conta implicitamente da situação. Olham-se uns aos outros, conferem seus copos e garrafas. Trago longo, boca nervosa, asco e tontura lancinante. A cabeça retorna de sua inclinação agora alterada, visivelmente anestesiada, mas chocalizada, fogem os formatos cotidianos. E os olhares trocam o sorriso de assentimento, vago, escandalizado, a não-aceitação por completo. Flui vapor quente da tua boca, que bate na minha cara feito gelo. E já não sei se congelado pelo meu frio por ti ou se pelo seu frio, trocas térmicas muito confusas e inconclusivas. Medos íntimos de incapacidade de compreensão de outras formas de existência, ou de inexistência. Vai saber.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0); text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0); text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Tudo dura um minuto. Um minuto que vivenciado esperando-se cada segundo dura uma eternidade, eternidade intocável, inescapável como tocar copos, peles, cabelos. Explosões de hormônios, rearranjos internos de açúcares, proteínas e outros que restabelecem a cabeça em outra ordem, nova esperança, novos percursos e novos tempos. Corpo emerge do fundo da cadeira e dele brilham os olhos, as narinas e os narizes-matizes-tatos. Cordas enlaçam a tudo e mesmo sem se ver na obrigação de desvencilho, sabe-se daquilo que prende. E a corda da liberdade bem firme ao pescoço estica-se com o corpo pendendo abaixo e novas investidas suicidas são dispostas como dados correndo no carpete verde duma mesa de apostas, fugindo o tempo, a dignidade e qualquer compreensão de um eu que perdura no tempo, que existiu antes da mesa e que bem possivelmente existirá a seguir, absurdo colossal essa segurança e essa introdução na lógica das coisas lógicas, óbvias completas e sem medos. O dedo erguido, o dosador vertendo lágrimas cor de caramelo, o copo novamente resituado numa posição de afogamento íntimo e de ressaca moral, viagem pelos canos, ápice da transubstanciação do ser alcoolizado, poluído, impuro, nocivo à mesa tão bem posicionada com toalha, pessoas, cadeiras, cardápios, comidas, bebidas e palavras. Tudo bem disposto, harmonizado, desfile militar de palavras jogadas ao vento como papel picado, recepção e honras aos vitoriosos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0); text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p style="font-family: trebuchet ms; color: rgb(0, 153, 0); text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;E enquanto os dedos se foram, fica o escandaloso corpo estribuchado, pendurado por uma corda, enojando e massacrando presenças tão ilustres e distintas, que nada fizeram para que tal efeito dominó viesse dar nessa escatologia barata e perversa donde fluem espasmos de auto-boicote, auto-destruição e desejo por carinho, afago que desperte para outra configuração de elementos, a incomunicação é completa ao ponto de fugir a lembrança, ficarem resíduos desmontados, desencaixados sobre os fatos, fatos que jamais existiram, sensação de coma induzido para amenizar a insuportável anestesia das coisas tomadas pela onda, pelo vento, pela bactéria, pelo vírus. Tudo transparente, invisível, como os mesmos argumentos de incompreensão à tamanha bravata desnecessária. Tudo fica vulnerável e a cada ataque fico tão vulnerável quanto. Mas tudo tende à destruição, os livros caindo das estantes, os carros pegando fogo, as árvores tombando pesadamente ao chão. E do chão, do chão, do chão, a volta é dura, é penosa, sensação de mutilação do corpo, da mente, da alma pobre e tosca que acaba de ser revelada a partir da fuga da etiqueta, da pompa e circunstância, das danças de salão e das filas de supermercado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/21101865588130791-6337260924783434377?l=pumaconcolorpuma.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/feeds/6337260924783434377/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=21101865588130791&amp;postID=6337260924783434377&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/6337260924783434377'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/21101865588130791/posts/default/6337260924783434377'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pumaconcolorpuma.blogspot.com/2008/02/dedos.html' title='Dedos'/><author><name>Lobão</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15913387863256783216</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp3.blogger.com/_fGm5L6T3z_Q/R7j5MZbEY1I/AAAAAAAAAAM/quLboivq3hM/s72-c/Disco+3+802.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
